CIBERESPAÇO II

- CRIÔLE DE SANICOLAU DE CABO VERDE E PORTUGUÊS LUSÓFONO

AOS CIBERLEITORES DO MUNDO TODO



UM ABRAÇO FRATERNO DE CABO VERDE A TODOS OS PAÍSES ONDE SE FALA O PORTUGUÊS, E NÃO SÓ....


Com a preciosa colaboração lusófona do melhor portal português - www.sapo.pt, a quem o autor, AGRADECE PENHORADAMENTE, em nome da tão apregoada "lusofonia".



Página actualizada em 27 de Agosto de 2007 - 06H00


INTRODUCTION: Tradução automática

The last year was the year of proteccion of the diealects in the World, [and passed unobserved, my God]. Will it be that it goes to happen the same as to the "Dinossáurios", for all historiclly known? When I was child, in S. Nicolau of Cabo Verde, (1950) where my deceased father, Luis Almeida Gominho who was a teatcher of many generations, NEVER allowed me speak to him in Creole, dialect considered and badly, minor, therefore what he was en vogue was the “Portuguese of the Metropolis - of Portugal”. So I only spoke creolo with my mother Amélia Gominho. Today, passed five decades, I cannot leave to give reason to both - my father and my mother Amélia. The portuguese is the language where study Law in a University in Lisbon and the Creole, [caboverdianidade] - a dialect in evolution! - it started to have place of honor in Cabo Verde, side to Portuguese. Thus, and I cannot translate into the Creole the A. Einstein relativity theory, I 'm trying in two languages Creole of the island of S.Nicolau and Portuguese, my language of study.
The author of S. Nicolau (my Creole)
Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt

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"POESIS" (poesia)- Criação literária: por ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO
adriano.gominho@sapo.pt
adriano.gominho@clix.pt


Alguns dados biográficos do autor:
Idade: 66 anos
Profissão:Chefe de Repartição - Aposentado da Aviação Civil, em Portugal.
Natural: S. Nicolau - Cabo Verde
Residente: Forte da Casa - Portugal
adriano.gominho@sapo.pt
Actualmente: ciberpoeta/escritor e, para aproveitar ainda a mente, estudante do IV ano de Direito, numa Universidade em Lisboa.

[EDIÇÃO BI-LINGUE PARA A NET]

Carta de un feto

Ya era vida, ya vivía vivo
En el vientre de la querida Madre mía
El Hombre – ese lobo – en su elección -
Dijo que vida aún no la tenía.

Quería venir al mundo, si, ¡tenía derecho!
Solo quería ver el Mar e las Montañas
Pero vosotros – Hombres – a vuestro querer
Con hierro me sacaron de las entrañas

Saddam ha sido juzgado y condenado
Ha tenido derecho a defensa, ¡sin embargo!
Yo no he sido escuchado. En un mundo de maldad,
Y también condenado sin piedad.

¡Pero les digo la verdad!
Venir a ese vuestro mundo malo,
Solo vuestro – de los Hombres sin piedad.
Prefiero dormir mi sueño profundo.

Autor; adriano.gominho@sapo.pt

Tradução livre
de Luis Gominho [filho do autor]/ Espanha 31-5-2007





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[ - CRIOULO - Caboverdianidade, como lhe chamaram e bem...]

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INTRODUÇÃO:

O ano findo foi ano da protecção das línguas/dialectos em via de extinção no Mundo,[e passou despercebido, meu Deus]. Será que vai acontecer o mesmo como aos Dinossáurios, por todos historicamente conhecidos. Quando menino, em S. Nicolau de Cabo Verde, onde meu falecido pai, Luís Almeida Gominho foi professor de muitas gerações, NUNCA deixou-me falar
com ele em crioulo, dialecto considerado e mal, menor, pois o que estava em voga era o "português da Metrópole - de Portugal". Reservava esse dialecto natal para falar com a minha mamãe. Hoje, volvidas várias décadas, não posso deixar de dar razão a ambos - o português é a língua em que estudo numa Faculdade de Direito de uma Universidade em Lisboa. E o crioulo, a [caboverdianidade] - uma espécie em evolução! - passou a ter o lugar de honra em Cabo Verde, ao lado do português lusófono, ambas manifestações línguisticas que, daqui, saúdo.
Assim, e enquanto não conseguir traduzir para o crioulo a teoria de Relatividade de A. Einstein, vou tentando poetar em duas línguas, as que me são mais queridas: crioulo da ilha de S.Nicolau e Português lusófono, minha língua de estudo.

o autor de S. Nicolau (meu crioulo)


Adriano Gominho
Maio de 2007

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Introdução

O que passá foi um one de gardá aquêle manêra de falá de nôs pove. Dôte manêra, criôle tá cabá moda quês biche d'antigamente, que tude gente tá conchê. C'onde mi era menine, na idja de Sanicolau, donde nhá pai, LUIS GOMINHO que Deus haja, era professor de mûte gente, NUNCA falá cm'a ele em criôle (ele catá t'xôme) - o que era b'nite era falâ português de Portugal. Um gardá criôle p'a falá que nhá mãe e nhás amigues....
Têmpo passá.
Estába d'rête: nhá lingua de estûde na Lisboa ê português, mas na Cabo Verde tûde gente tá falá agora sem brigonha em criôle, lingua que junto má português tá servi nôs pôve. Até ranjá coraja para escrevê côsa de gênte grande em criôle, côsa dificil, mi tá continuá ta fazê poema na nôs criôle .

O autor de S.Nicolau ( um criôle de Cabo Verde)



Criole de Sanicolau/Português lusófono/Inglês
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Aborto

Carta de um feto
(republicado na Net, hoje, 6 de Maio de 2007 -
DIA DA MÃE)

Já era vida, já vivia vivo
No ventre da querida Mãe-minha
O Homem - esse lobo - no seu crivo
Disse que vida ainda não tinha...


Queria vir ao Mundo, sim, tinha direito!
Só queria ver o MAR e as MONTANHAS
Mas vós - Homens - a vosso jeito,
Com ferro me sacaram das entranhas...

Saddam foi julgado e condenado
Teve direito a defesa, porém!
Eu não fui ouvido, mundo malvado,
E também condenado com desdém...

Mas digo-vos a Verdade!
Vir a esse vosso Mau Mundo,
Só vosso - dos Homens sem Piedade,
Prefiro dormir meu Sono Profundo.

adriano.gominho@sapo.pt
Lisboa, 17 de Janeiro de 2007,
Publicado no nº186 da"SINETA"
Abril/2007






R E F L E X Ã O


-1-


Se não houvesse espelho?
Se catem espedge na Munde?


Como seria melhor o nosso Mundo?
C'má era bnite esse nôs Terra
Não nos preocuparmos com nosso "eu"
Sem gente preocupôde que sês pessoa
Ter tempo para olhar esse profundo
Tê têmpe p'a odjá longe,
Mundo, de Vaidades, sem Céu...
Munde de vaidade, sem Nhô Senhor...


Não ver a nossa face ao léu,
Cá ôdjá cara descarôde
Ter tempo para olhar o irmão,
Tê tempe para salvá sê irmon
Todos filhos do mesmo Céu,
Tude fidge de mêsme Nhô Senhor
Errantes no mesmo chão.
Criatura de mêsme tchon...


Se não houvesse espelho? riscado!
Se cá tem espêdge mesme riscôde
Não viamos nossa imagem ofuscada
Nôs gente catá ôdjá sê cara sômbrôde
E sobraria tempo pr'a ver o outro lado...
Ta f'cá que têmpe p'a odjá longe...


Olhar e ver outra esfumada margem
Odjá mesme que névoa na ôdje
E perguntar então pelo abandonado
Chemá p'aquele desgraçôde,
O que labuta mesmo sem miragem...
Aquele que ta trabâdjá sem future...



adriano gominho,
adriano.gominho@sapo.pt
Lisboa,
Outono 2005

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-2-




A TIMOR:

Díli, noite de Lua Cheia - 1963


"Beiros", luzes no mar de coral
Rubras acácias pingando pétalas
Vento quente vindo do litoral
Recurvadas palmeiras no "mangal".

Abeiro-me do Farol ainda quente
No cimento do banco estalado
O calor do dia ainda se sente
A Lua no Ataúro, mesmo ao lado!

Miro o horizonte distante,
Um rapaz do Verde Cabo ido
Lembro-me da Escola, diante
D'um Timor ao Minho entendido...

Balançam as palmeiras no espaço,
Sinto a brisa na face de rapaz
Vejo timorense de filho no regaço
Colhendo pétalas d'Amor e Paz.

N.A.
"beiros" - barco típico de Timor,
"mangal" - vegetação costeira

___________
Adriano Gominho,
alferes miliciano,
Díli,12/1963
adriano.gominho@sapo.pt



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Criôle de S.Nicolau
TIMOR,
Dili, num nôte de Lua de bóbra-fóga- 1963

Bôte, luze na mar, na rócha,
Flor d'acácia encarnôde na calçada
Vente quente t'chgôde de mar
Coquêre inclinôde na prainha.

Mi tâ sentâ na Farôl quente
Naquêle banco estalôde
Ta sinti calôr de Sol d'esse dia
E Lua na idja de Ataúro, tá odjôme...

B'siá horizonte longe...
Um rapaze d'jgóde de Cabo Verde
Na cabeça aquêl S'cóla Central de S. Nicolau
Na terra- longe - de Minho a Timor.

Ta banâ coquêr na céu azul s'curo
Na nhá cara de m'níne quêl mormança,
Tá odjá timorense de fidge na ragôce
Tá catâ flor d'Amor e de Sossêgo!

Adriano Gominho
Alferes, Timor 1963
N. A.
"beiro" - bote de Timor
"mangal" - planta na mar


-3-

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Oliveira da Igreja S. Domingos
Lisboa


O Sol faz brilhar o mármore de D. Maria,
As esplanadas cheias de gentes desvairadas
É dia de Primavera de Sol, ao meio-dia -
Miro-te oliveira florida de ramadas caídas.

Por debaixo da sombra, não na soleira
Da porta uma guineense, longe da Guiné, deitada
Sobre cartão, à sombra da oliveira
Longe da palhota, lá longe deixada...

Teu olhar triste olha a portada da Igreja,
Teus compatriotas passam em algazarra,
Não podes caminhar! Nos teus olhos a inveja,
De não poder mirar campos de arroz ou mancarra!

Ao invés, velhota à sombra estendida,
Não vês teus netos brincando às escondidas,
Vês sim, aos bocados, extinguir a tua vida,
Miras uma Lisboa não tua, de gentes perdidas...



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-4-
Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt

Poema elaborado, hoje, 12.05.06, ao ver uma pobre guineense,
deitada à sombra da oliveira do Largo de S. Domingos - Lisboa


Criôle de S. Nicolau - escribide de nhâ cabeça


Pê de olivêra na lôrgue de S. Domingos
Lisboa

Dia de Sol de rachâ pédra,
Lôrgue chêu de gente de munde
Ê têmpe quente, de Sol d' África,
Mi tâ espiôbe, olivêra tchêu de rama de flor..

Debôche de bô sômbra, ca ê na solêra
De bô porta, guineense, longe de bô terra, dêtôde
De cima de papêlon, câ ê sombra de bananêra,
Longe de bô palhota, que bô dx'a ... lâ longe...

Bôs ôdge ta espiá p'a Lorgue d'Igreja,
Bôs irmon tá passá, ta fazê barudge
Bô câpôdê andâ! Sofrimentos na bô cara
Bô c'âtâ odjá bô Guiné d'arrôz, de mancarra!

Ó munde bô ê triste! Bêdja na sombra dêtôde,
Bô c'ata ôdjá bôs nêtes tá brincá chichela-chiche
Bô vida ta cabá, em pinguinha, na terra longe,
Bô ta morrê na Lisboa que câ ê bossa - ôtes gente...

Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt
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Poêma fête, ôje, 12.5.2006, cônte me odjâ, um mudger pobre,
de Guiné, dêtôde na sombrinha de um pê de azeitôna
na Lorgue de S. Domingos- Lisboa, Sec XXI

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POEMA -5-

As crianças
do Sahara Ocidental


Barraco de barro amarelo,
Amassado com lágrimas e lama
E na Alma pena mete só de vê-lo
Aqui tão perto - sem eco que não clama!

A chuva madrasta por castigo
Cai do Céu e tudo destroi
Fica a lama e o barrote antigo
No Deserto espalhado - tudo Doi!

Um Hospital sem camas onde a vida
Se esvai, lentamente, no duro chão!
Deste lado, a opulenta corrida
Onde todos bailam neste Salão!

Que Mundo é esse, Senhor?
Uns no condicionado ar!
Que Planeta nos dás, Senhor,
Outros no Deserto a penar!


_________________
Poema elaborado, hoje, Abril de 2006
ao ver uma reportagem na TV
sobre a fome no Sahara Ocidental
Do Livro de poemas do autor: [Vento - Diga-me Aonde?]
Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt

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POEMA -6-
IX
Quês m'nines na Sahara Ocidental
[Criôle de S. Nicolau - Cabo Verde,
Composição e tradução livres do autor]

Barraca de bôrre marêle,
Massôde de t'chôro e lama
Ta mêtê dô N'alma, só de ôdjáz,
deste nôsse banda - da rica Europa!


Tchuba desgraçôde, tá castigâ
bem de Céu pá cabâ que rêste,
Ta f'ca na chon madêra bêdje
E lama espadjôde na Miséria!


Hospital ca'tem cama , vida tâ morrê,
Na morrinha de tarde na tjôn dure!
Deste lôde, ê corrida e festa,
- "Globalização" - Tude gente tá badjâ!

Ó Mundo de Nhôsenhor? Nhâ mãe!!
Bôs fidges b'nite na frêscura de fartura,
Ó Nhosenhor que Terra bô dône,
Uns tâ gozâ, ôtes tá sofrer atê morrê!...

________________
adriano.gominho@sapo.pt


Poema fête, conde odjá na TV,
quês m´nines ta sofrê no Sahara Ocidental,
2 de Maio 2006

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POEMA -7-
X


A Terra e os Meteoritos


Bola azul no seio de pedras rugosas
Rodando, gravitando, a caminho do Nada
É vê-los nas noites pouco luminosas
Cruzando os Céus evitando a derrocada!


Nós, cá em baixo, donos do Nada,
Guerreando, matando, destruindo!
A espada está por cima, afiada,
Na estrada do céu que vamos seguindo...


Cogito: como seria bom lá prá cima mandar
Os Senhores deste nosso Mundo
Para visionar o nosso Eterno jogar


Nessa roleta espacial dos negros buracos
Do Espaço sideral e então pensar
Não valer a pena virar o Mundo em cacos.

_______________________
Poema escrito, hoje,dia 2 de Maio,
oo saber que um meteorito passou pela Terra,
em 2004, a poucas dezenas de quilómetros.

adriano.gominho@sapo.pt


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POEMA -8-



Tabacaria CARAVELA - Rossio Lisboa


Foi num três de Maio já lá vai o passado,
Nossas caravelas Terras de Santa Cruz achadas.
Foi num três de Maio, no Rossio especado
Vendo antiga Tabacaria e suas montras fechadas.

Havia catálogos, cartas amareladas entaladas
Por entre grades de ferro ferrugento...
Assim vai Lisboa engolida, lojas abandonadas
Na voragem do tempo implacável, ao vento...

Requiem para a Caravela d'outrora!
Onde estão teus cachimbos vistosos,
E teus relógios marcando a hora,

E a electrónica de ponta dos "Cassios"?
A vida moderna Nada perdoa agora,
Diz-se, Adeus, sem mais demora!

Adeus, Caravela do Rossio...

Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt

Poema escrito hoje, 3.05.2006,
ao passar pelo Rossio - Lisboa e ver a antiga
Tabacaria Caravela fechada, quiçá, para sempre.

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Poema -9-
CEM ANOS DA BICA
[19-11-1905 - 19-11-2005]
"A Brasileira"

Na penumbra dos tempos, ó "Brasileira",
vejo-te na névoa dos charutos d'outrora,
de poetas e artistas em amena cavaqueira,
cem anos é tempo! - eles foram-se embora...

Sai uma "bica"? p'ra mesa d'outrora!
A conversa vai animada nesse Outono,
chega o café quente, fumegando pr'a fora,
só falta o cristal d'açucar e lá se vai o Sono...

À memória, chamada sentida, em surdina!
Eles já não respondem - amigos - é assim a Vida!
Tomba a colher no açúcar e repousa a nicotina

na chávena quente alapada, na esteira
d'outros tempos - um século - não a despedida!
E a "bica" ainda aquecendo Lisboa inteira...

Homenagem aos poetas,
pensadores
e à "Brasileira" do Chiado - Lisboa
Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt
Lisboa, 19-11-2005



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Poema -10-

[Em criolo de S. Nicolau - Cabo Verde - Cem ône de "Bica"]
(Criação e tradução livres, do autor)

Ná nébôa de têmpe, ó "Brasileira",
Tâ odjôbe na fume de charute d'ôte têmpe,
Cantinhe de poeta ta passâ sabe!
Cem ones ê mûte tempe! D'jas bá imbora...

Um cafê p'a mêsa dôte têmpe!
Rodada tá animôde nêsse Outono,
Bem cafê quente tá p'ta fume p'a fora,
Sô tâ faltâ sucra p'â tra Sone...

Lembrança na cabêça de gênte!
D'jás bá sê caminhe - ê bida!
G'djêr na sucra, tá f'ca mêle de canhôte

Lapôde na poêra de têmpe,
mûte têmpe, na cambá de bôquinha de nôte!
E "bica" i´nda agora tâ tra friu na côrpe de gênte de Lisboa...

adriano.gominho@sapo.pt 19-11-2005

Poema - 11

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Às ruinas do
Cais de cimento de S. Vicente

Calma baía, mancarra quente na mão,
velho guindaste de ferro parado,
cheias lanchas de negro carvão
botes gingando com coisas pr'o mercado!

Remos ao alto, braço queimado
dos catraeiros da Baía - sua morada-
e aquele triste cambar de Sol, tapado
de prenhes nuvens - flocos do NADA...

Choram as vagas no Caizinho ao lado,
gemem ondas na coluna fendida -
roncos p´lo tempo nunca apagado,

memória e recordação não esquecida,
sonhos de menino ainda enganado,
ou morna na poeira dos tempos perdida...
_

Recordando um S. Vicente dos anos 1950,
Tinha 10 anos
Lisboa, Nov. 2005
_________________
Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt

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Poema - 12
Ruina de
Cais de C'ment - Sãocente - 1950

Baia d'cêgode, mancarra quente na mon
Guindaste bêge de fêr ferrujôde,
Lancha carregôde de carvon de pedra
Bôtes tá trazê côsa p'a pelorinhe!

Reme p'a riba, broce quêmôde
Marinhêre na baía sê morada -
Triste cambá de Sol, tapôde
De fiapa de nuvem prenhe de nada...

Tá chôrá ondas na Caizinhe de pêrte,
Tá gemê onda na cais quebrôde
Grite que têmpe ca tá pagá,

Lembrança bem lembrôde,
Sonhe de m'nine ainda enganôde,
Ou morna tocôde dias-há...

AdrianoGominho - Lisboa Nov/2005
adriano.gominho@sapo.pt

Poema - 13

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Castanheiro falso
(Campo Pequeno - Lisboa 2005)


Não és do campo, amigo, não!
Castanheiro na Lisboa atarefada,
As falsas castanhas no chão...
As amareladas folhas na calçada...


Do frio banco de frio cimento
Mirando Praça de Campo Pequeno
Contemplo-te no teu esquecimento,
Na velha Lisboa já sem terreno...


No beco, castanhas cinzentas
Vendem-se, na Calçada d' Outono.
Castanheiro falso não te arrependas,
Imagens são miragens, d'um Sonho...


Lisboetas apressadas caminham
Apressadas, com botas de esquimós,
As brancas calçadas pisam
Onde um solitário medita a sós...

É Outono!


adriano.gominho
adriano.gominho@sapo.pt
Campo Pequeno - Lisboa,
Hoje, 9 de Novembro de 2005
Poema - 14


Castanhêre enganôde
(Campo Pequeno - Lisboa -2005)

[criação e tradução livres de autor de S. Nicolau - Cabo Verde]

Bô câ ê de cômpe, nha amigue, não!
Castanhêro brôbe na Lisboa fadigôde,
Castanha brôbes tâ caíde na chon
E bôs fôdjas marelôde na calçada...

Deste banco gelôde de s'mente
Ta odjá Largo de Campo Pequeno,
Ta mirá na bô pênsamênte
Nesse Lisbôa bêja sem chon...

Na canalinhe, castanha cinzente
Tá vendê, na Calçada d'Outono
Castanhêro brôbe de cidade cá rapêndê
Bôs ôdges ainda tá sonhá tambêm...

Gente de Lisbôa fadigôde
Tá andá que bota de frio,
Tá calcá pedra de calçada
E mi tá falá p'a mi mesme...

Outono...


Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt
Lisboa - Campo Pequeno,
Hoje, 9.11.05, 14H00



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POEMA [português lusófono e crioulo de S. Nicolau, do autor]

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Poema - 15-

Carta de quem chegou, a todos os emigrantes de Cabo Verde

[a um amigo que fugiu para Holanda, em 1950
[pa um amigue que fugi pâ Holanda na ône de 1950]

Num vapor de canudos, em dia de bruma,
Num vapôr de canudes, num dia de névoa
Numa tarde cinzenta de Setembro, parti.
Num tarde triste de Setembre, um fudgi.
Olhei as ilhas o mais que podia e então senti,
Me odjá nôs triste idja e um senti na nha
À minha volta já não haver senão escuma.
Ca tê más nada - só mar e escuma.


Foram-se os dias, vieram longas noites de bruma
Mute dia passá, depôs d´'jegá nôte de breu,
Até ver terras de Holanda - a Europa sonhada -
Atê odja terra d'Holanda - Europa sonhôde -
Terra de castelos de oiro, prata e fada encantada
Terra de castele d'ore, de prata de fada encantôde,
Sonhos e Fantasia do menino-ilhéu, mais uma...
Sônhe encantôde de m'nine d'idja, más um...

Sonhos, meu velho amigo, mil sonhos desfeitos!
Sônhe, amigue de pêite, mile sônhe cabôdes
Não encontrei as nascentes de oiro e prata
Um cá contrá ôdjes d'ore e de prata
Deram-me trabalhos pesados em portos suspeitos,
êzes dôme trabôdje pêsôde na porto desconfiôde.


Onde a escuridão encobre a sucata,
Na lugar que escure ta tapá fêrre bêdge
Por onde vagueia gente boa ou com defeitos,
Donde ta passeá gente de bem e gente mofine
Que bebe, que ri, que chora, que ama e mata...
Que tá bêbê, tá ri, tá chôrá, ta amá e tâ mâtá...

adriano gominho
adriano.gominho@sapo.pt
Outubro 1953,
Lisboa, 2005

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Poema - 16 -
Soneto às Ilhas de Cabo Verde...
Criôle de Sanicolau

Baté onda na proa de naviu
Mi tâ levantá ôdge d'aquele linha
Mi tâ ubí stâlá quês madêra
Ta parâ pâ pensâ c'nhás bôton...

Tá fazê barudjo na môstre na sône
Quês pêches tâ saltá na Norte
Mi tá ôdjá capotona diante de mim
Quês Idjas de Cabo Verde - que sôrte!

Pedras na mar tá dsabá
Tem capotonas na mar azul
Mi ta ubi quel vente fresquinhe

Na quês corda tâ cantá
E "Ildut" tâ dobrá Vermelharia
I'nda Sol o horizonte c'a cambâ!

Relembrando uma viagem no "Ildut - Ano de 1950
adriano.gominho@sapo.pt
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Poema - 17 -
Português lusófono
SONETO AO "ILDUT" (Um navio)

Bate a alta vaga na proa do navio,
Levanto os olhos do horizonte,
Oiço o ranger das tábuas no vazio
Vasculho a pura e jovem mente...

Range a retranca no mastro dormente,
Saltam prateados peixes a Norte,
Olho e descubro vultos em frente
As ilhas de Cabo Verde - que Sorte!

Penhascos sobre o mar caindo,
Há fantasmas num oceano azulado
E eu o fresco vento ouvindo,

Cantar nas cordas do desfiado
E o Ildut a Ponta dobrando
I'nda o Sol o horizonte não deixado

Relembrando uma viagem no "Ildut"
- Ano de 1950

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Poema - 18 -
Fernando Pessoa - 70 anos da sua morte
30-11-1935 a 30-11-2005
[Homenagem]

Vejo-te Pessoa na "Brasileira"
que ora fez cem anos, em Novembro,
vejo-te poeta de chapéu d'abas à maneira
bigode da moda, se ainda me lembro...

Caeiro, Campos ou Pessoa, povo teu
bem te conhece, no Chiado imortal,
teu nome no tempo não desapareceu
no rebuliço da tua Lisboa natal ...

Ó Pessoa repousa no teu verso
Ainda cantados neste nosso Vale
onde tua língua se lê com apreço...

"Nasce um Deus, Outros morrem" no vale
viva o poeta de "Mensagem" mais os terços
qu'inda rezamos para se cumprir Portugal...
______________
adriano gominho
adriano.gominho@sapo.pt
Homenagem aos 70 anos da morte
de Fernando Pessoa
Lisboa 30.11.2005

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Poema - 19 -

[Em criôle de S. Nicolau de Cabo Verde]
Fernando Pessoa - 70 one de bô môrte
30-11-1935 a 30-11-2005

Mi ta odjôbe Pessoa, na "Brasileira",
que agora complêtá cem ones,
mi ta odjôbe poeta de chapêu
bigôde trocide, côsa dôte têmpe...

Caeiro, Campos ou Pessoa, bô pôve
tâ conchêbe na Chiado de tûde gente,
bô nome cá tá desaparecê na têmpe
nesse Lisboa fadigôde...

Paz Pessoa na bôs poemas de sempre
cantôde nesse nôsse Munde
d'onde tûde gente tâ gostá de bô língua...

Um Deus ta nacê, Ote ta morrê,
viva poeta de "Mensagem" más aquele rosário
donde nô tâ razá pâ fazê bô Portugal...

adriano gominho
Lisboa , 23.11.2005


G8 - Perdoar a Dívida aos Países africanos


Deus, Alá, ou Buda eternos
Satisfeitos estão hoje mais -
Os donos do Seus Mundos Terrenos -
À dívida disseram BASTA, nunca mais...

Os deuses recomendam do Alto Cais:
- Perdoar não significa aos mandantes
Aumentar as despesas do Satanás -
Viver bem e os outros, como dantes...

Gritai - ó povos d'Áfricas - e outros mais,
Clamai aos vossos, outros Novos Rumos...
E vós? Largueis o marasmo desses mangais


De queixumes, acocorados na sombra dos fumos:
Pegai nas Sementes, Enxadas e Animais,
Rumai agora pr'o FUTURO, sem queixumes...

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Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt

Soneto, escrito, hoje, 2005-06-11,
ao saber que os G8 resolveram perdoar a
dívida a África e alguma A. Latina. Bem-haja

Crioulo de S. Nicolau -
Tradução e criaçãolivres do autor
adriano.gominho@sapo.pt

Poema:

G8, tá perdoá divda de pobres

Nôs Deus, Alá ou Buda,
Hoje ta f'cá contente
Dône d'esse Munde
Cabá quêz conta de cadábse...

Mas Êz mandá tm'a cuidôde, lá de riba:
Pordoâ cá mesma côsa que fazê
Governante engordá Conta de Satanás,
E nôs ta f'cá pôbre, moda dantes...

Nôs gritá! - Tude gente d'África,
Pâ nôs encontrá um caminhe novo,
Pâ nôs saí desse nôs pobreza:

Sem guisa, sem encôstá na bela-sômbra.
Gente, nô pegá na s'mente, enxada e biche,
C'nôs mon gente tá contrâ Futuro sem tchorá...
Poema - 20-



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Dia da Criança,

1 de Junho de 2005
Dia de meninada

Português/crioulo de S. Nicolau - tradução e criação livres, do autor
====

Seria bom viver num Mundo Global.
C'má era bnite vivê num Mundo de Nôs tôde
sem haver tristes crianças
sem encontrá tristes m'nines
com vidas nessas Áfricas de riqueza colossal
tá sofrê nesse África de riqueza demundo
onde a amarga verde folha é comida...
donde pájâ ê góra c'mida de gente


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Sim, viver num Mundo Global
Sim, morâ num Munde de Tude Gente
onde não existam costelas arcadas,
sem odjá costela de gente saíde
sujidade e moscas na face angelical
miséria, moscas naquês carinhas de m'nines
De meninos com vidas acabadas
De m'nines de vida cabôde


Por este Nosso Mundo tão desigual,
por causa deste nôs munde desgraçôde
d'esbanjamentos de comidas
de fartura de c'midas na caxôte de lixe
onde não se vê ténue sinal
sem mostra de crê mudâ,
de Bondade p'ras Almas sem Vidas...


E nós, aqui, viramos a cara pr'os lados,
e tude gente ta vrá cara pâ lôde!
o mesmo fazendo os Governantes,
Moda governantes que ta mandá
nossos e delas - pobres Áfricas!
De nôs e d'eze - pobre África!
ó África pôbre das enxadas
sem tchuba pâ enterrâ grão de midges...

Portugal 11/6/2005 - Forte da Casa
adriano.gominho@sapo.pt

Em castelhano por Luis Gominho - filho do autor, vivendo em Espanha

Día del Niño

1 de Junio del 2005


Seria bueno vivir en un Mundo Global.
Sin haber tristes niños
Con vidas en esas Áfricas de riqueza colosal
Donde la amarga verde hoja es comida

Si, vivir en un Mundo Global
Donde no existan costillas arcadas,
Porquería y moscas en la cara angelical
De niños con vidas comprometidas

Por este nuestro Mundo tan desigual
De despilfarros de comidas
Donde no se ve tenue señal
De bondad por las almas sin vidas...

Y nosotros aquí, volvemos el rostro para el otro lado,
Lo mismo haciendo los gobernantes,
Nuestros y de ellos - ¡pobres Áfricas!
De las palas que no cavan la tierra como antes...

Portugal - Forte da Casa
adriano.gominho@sapo.pt


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Poema - 21 -
1 de Junho de 2005.

Soneto
Dia do Poeta
21-03-2005


Tamborila a chuva suja, de verdade,
Tchuba porca de verdade
d'esta estranha e parda atmosfera
desse céu ta fazê mêde
hoje grande lixeira da Humanidade
hoje "colaça" de tude gente
qual Bola azul - uma quimera...
cadê bola azul, cadê sonho...


É dia dos poetas patetas. Foi, era
Ê dia daqêzes poetas. Djá pâssâ
e será pr'os qu'inda se incomodam
e nós ê pouco que tâ repará
no destino do Nosso Planeta que erra
c'ma nôs terra tâ sofrê
nas ambições que nos confrontam...
empurrôde pâ seberba de tude gente


Os poços de petróleo secam, amigo,
Quês poço de pitrôle tá secá,
água das nascentes já se esvai,
ê água que dâ tir na rocha
e nós, bem, obrigado, o outro perdido...
Nôs tá f'ca bem, obrigado, largôme-da-mon...


nesta Bola de poetas patetas, vais
nesse bola de poetas espantôde,
Sou mais de mais d'um deles escondido,
más um mofineza de poeta
escrevendo Verdades não "ais"...
que tâ escrebê côsa, ma câ tá chorâ...



adriano gominho
adriano.gominho@sapo.pt
Dia dos poetas,
Lisboa, 21.3.05



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Poema - 22


Simples, o caixão de cipreste do Papa João Paulo II:
Caxon simples, sem enfeites...

"No dejo tras de mí propriedade alguma de la que sea necessario disponer"
Testamento do Papa Juan Pablo II,
Roma, 6-III-1979."



É a Sª.Santidade na sua simplicidade,
Ê Santopai, ôme simple,
No amarelado lenho de viva vida,
naquêle madêra que dj'a foi planta
d'árvores que Deus de verdade
criá pâ nôs companhêr na sone p'a sempre
Simples Urna de madeira polida
Côsa simples, fête de madêra lustrôde


Na imensidão da Praça colocada,
poste na mei daquele lôrgue
onde só os pombos esvoaçam vida,
onde só pomba tem vida
sofrida nas gentes nessa triste calçada...
n'Alma daquês fige de Nhôsenhor...
Gente calada na calçada plantada
gente calôde, na calçada pregôde


No Testamento, bens não deixou,
Na testamente cá dxá nada
como exemplo, simples caixão de cipreste,
um mostra de caxôn de Casa de Tumba
sem gavetas, pois do Mundo NADA retirou...
sem gaveta, dês Mundo gente ca tâ levâ NADA


Ficou o Amor que p'lo Mundo espalhou,
f'ca sê Amor pâ tude gente
E sementes, pr'a neste Mundo agreste,
E smente pa neste Munde desgraçôde
mais ciprestes - como exemplo - legou...
más plantas pâ gente semeâ...



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criação de:
adriano gominho,
Português/"crioulo livre"

Ao ver tamanha grandeza
de um simples caixão de cipreste, para um Grande Homem.

No dia do funeral do Papa João Paulo II
Forte da Casa - Portugal,
Abril de 2005


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POema - 23-




ROTCHA DE NHÂ TERRA
ÀS ROCHAS DA MINHA TERRA

Rotcha de nhâ terra
Rochas da minha terra

Vente na encosta tá subiá
O vento na encosta assobia
Leste ta curvâ quel tamarindêro
O Leste curva o tamarindeiro
Quês cabra ta gritá junto
As cabras berram em sintonia
O azul de céu é tude igual
O azul do céu é rotineiro.

Cocuruto de Monte olte
O topo do monte altaneiro
Ta panhâ algodon fête bocôde
Embala o algodão em flocos
Carrapetas na Covoada
As carrapatas no desfiladeiro
Ta parcê moda pedra na rotcha
Surgem por entre pedras em blocos



Tarde tâ d'jgá na morrinha
Chega a tarde, cai a noitinha
Griles tá fazê barudge na mur
Batucam os grilos no muro
Sol ta gatjá na monte
O Sol esconde-se na Centinha
Manhã ê ôte dia pâ vencê.
Amanhã será outro dia duro.


adriano.gominho@sapo.pt
Revivendo S. Nicolau -
[ano de 1950]
Lisboa - Julho 2004

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Poema - 24-


2

Rotjas paridas c'o sofrimento
Rochas paridas com sofrimento

Geme o vento nos picos
Vente ta gemê na Rocha
Curvam a erva e os fetos
Tá fazê curvá monda e padja
Mãe-Natureza aos gritos,
Mamãe - Natureza tâ gritá
Para te parir - Rochas dos meus afectos...
Pâ paribe - rotcha cridas



Tchuba câ ta dôbe bônhe
As nuvens só lavam-te, de leve
Nuvem ta lavôbe de mancinhe
Como no tempo dos nossos antanhos
Moda na têmpe de nôs papai,
Geme assim o vento que leve
Assim ta gemê quel vente que ta levôbe

Pr'a longe - Sonhos de Saudade
Pá longe - sonhes de sôdade
Pr'a longe, naquele mar
Pá longe, naquêle mar,
Que contemplas à tarde
Que bô ta ôdejá na desamparinho
Quando chega a hora de chorar!
Cônde tá t'chegá hora de chorâ!

Geme o vento nos picos escondidos
Vente ta gêmê na olte,
Das rochas paridas com dor,
De rotcha paride que dor,
Que dilacera e castiga os fugitivos,
Que tá ratchá,
-Teus filhos paridos com amor.
Bôs fidges parides que amor...

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adriano gominho
Julho 2004

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Poema - 25


Soneto às Ilhas de Cabo Verde...


Bate a alta vaga na proa do navio,
Quêl ônda na proa de barco
Levanto os olhos do horizonte,
Um tâ levantá ôdge d'aquele linha
Oiço o ranger das tábuas no vazio
Um ta ubí stalá quês madêra
Vasculho a pura e jovem mente...

Ta parâ pâ pensâ c'nhás bôton...
Range a retranca no mastro dormente,
Tá fazê barudjo na môstre na sône
Saltam prateados peixes a Norte,
Quês pêches ta saltá na Norte
Olho e descubro vultos em frente
Um tá ôdjá capotona diante de mim
As ilhas de Cabo Verde - que Sorte!
Quês ilhas de Cabo Verde- que Sorte!

Penhascos sobre o mar caindo,
Pedras na mar tá desabá
Há fantasmas num oceano azulado
Tem capotonas na mar azul
E eu o fresco vento ouvindo,
Mi ta ubi quel vente fresquinhe

Cantar nas cordas do desfiado
Quês corda ta cantá
Cânhamo, e o Ildut a Ponta dobrando
Na corda e Ildut ta dobrá Vermelharia
I'nda o Sol o horizonte não deixado
Ainda Sol cá tá d'jgá naquêle linha!
---------------
adriano gominho
Relembrando uma viagem
Ano de 1950


4

No meio do Oceano
Na mei de mar


Quem vos semeou - desertas ilhas? -
Quem fazê de bô smente - ilhas pelôdes?
Nesse meio do mar profundo e medonho!
Na mei de mar fundo que ta metê mêde!
Dez ilhas d'um vulcão e milhas
Dêz ilhas d'um vulcão e lonjura
D'água onde a água é um Sonho!
D'água onde água ê Espêrança!

Estão no redemoínho espalhadas
Espadjôde na Cova de Manhánhâ
Nas escumas dos navios passando
D'escuma de navio tâ passâ
Levadas p'lo vento às rabanadas
Levôde pâ vente malcriôde
Rochas e pontas abruptas dobrando.
Rochas e Ponta de terra tá dobrá.

Chiai! - vento nos cordames,
Cantá vento naquês corda
Chorai!, filhos da terra - fugitivos,
Chorâ - fidges da terra fudgidos
Que ta b'scâ vida nandaimes
Tá besiá vida n'andaimes

Desta Europa d'agora, de enxames
Desse Munde d'hôje, de data
De trabalhadores inactivos,
De gente sem trabôdge
Num mar sem vapor como exames...
na mar sem vapôr em enxames.

--------------
adriano gominho
Aos Emigrantes de Cabo Verde
Lisboa 23-7-2004

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Poema - 26 -


5


Rocha da Centinha - S. Nicolau
Rotcha de Centinha

Vejo-te, Rocha da Centinha,
Um ta odjôbe - Rotchas de Centinha
Como pedra furando o Céu,
C'ma pico tâ frá Céu
Na tarde que chega à Prainha
Na tarde que ta djegâ na Prainha
E as nuvens cobrindo-te com o véu...
E nuvens tâ cobribe moda véu...


Nos teus flancos as feridas ao léu
Na bôs costa feridas cram
Engalanadas p'las carrapetas
Lindôde pâ carrapeta
Das pedras caídas do céu
De pedra caíde do céu
Cá em baixo, as Águas-das-Patas...
Debôdche d' Águas-das-Patas


Ó Sol poente que pinta teu cabelo
Ó sol tá cambâ na bô cabêle
Branco de branco nevoeiro
Brancura de cabel branco
Tudo é rude e tudo é belo!
Tude ê brôbe, tudo ê bnite.

Ó cinzas rochas com desfiladeiro!
Ó rotcha cinzenta sem fundo
Donde pinga a água no seio
Donde ta pingá água ne sê mei
Das avencas ano inteiro...
De fête verde, tude ône intêr...

adriano.gominho@sapo.pt
Relembrando S. Nicolau - 1950
Lisboa, 24 de Agosto de 2004



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OUTRO E-BOOK
[e - Poesis]

Verão 2004


SER SIMPLES, APENAS...

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e
SÓ SIMPLES


Poema I

Querer ser simples


Gostaria de ser simples, enfim
Acordar ao som dos pardais,
Ver andorinhas na tarde sem fim
De palha no bico, nos beirais...


Ver todas as Crianças na Escola
Mesmo por carreiros do mato
Regressar à tardinha de sacola
Chutando simples bola de trapo...


Gostaria de ser simples - um cidadão
Que ninguém conhecesse na rua -
Que vê no seu semelhante um irmão
Com tempo para olhar a foice da Lua...


Gostaria de ser simples no olhar
Pr'a flor silvestre do monte,
Vendo a magia no pintar
Da Natureza ou na seca fonte...




---------------
adriano gominho
Lisboa-
Julho de 2004



Poema II

Tempos de Criança


Como seria bom voltar a correr arcos,
P'las ruas do meu Bairro, à noitinha,
Jogar num banco p'la fresquinha
Com pedras redondas ou telhas em cacos,


Ver a Ribeira Brava, à noitinha,
Sussurrando a caminho do mar,
E o Lombinho o luar a alumiar,
Ou roncar do mar, longe, no V da Prainha.


Ser simples, correr atrás dos gafanhotos,
Cortar caniços com canivete barato
Sem pensar no amanhã, sempre ingrato,
Correr p´las escuras vielas - com os garotos -


Ser simples, ser Tudo sem ter Nada,
Ver o Sol, impávido na sua caminhada,
No Seco Norte sem a chuva desejada,
Ver meu povo semeando sua Fé inabalada...
--------------
adriano gominho
A S. Nicolau de Cabo Verde,
Lisboa, 9-7-2004
Recordando ano de 1950 [tinha 10 anos]



Poema III

Direito a Aprender

Ser simples, ir à Escola
Por carreiros no mato traçado
Sentir o rolar da caneta na sacola
De cartão, ou serapilheira do ensacado!


Sentir o mato arranhar as perninhas,
No cacimbo da fria noite passada
Levar a cabeça tinta das tinhas -
Outras doenças mais da pequenada.


Ser simples, levar feixe de varas
Para o Professor escolher a melhor,
Acabar a classe e ter recreios sem amarras,
Oferecer-se para aplicar palmatórias de dor...


Ser simples, sonhar vir a ser um Nada,
Sem horizonte além do horizonte
Vendo mar, pensando na encantada
América ou hospitaleira Holanda distante...

--------------
adriano gominho
S.Nicolau - Cabo Verde
Vila da Ribeira Brava - ano de 1950

Poema IV

Evasão...

Queria ser simples, viver noutro Planeta,
Onde o Desconhecido fosse meu irmão,
E a língua entendida por todos - num Cometa -
Que TODOS unisse com seu halo da Razão!


Queria ser simples, sem carro, sem carroça,
Sem Games Boy, sem Telemóveis impertinente,
Ouvir apenas as sinfonias de aves, sem mossa
De não ter HI-FI, CD´s - coisas do Continente!


Ter apenas o suficiente para viver,
Conviver e deixar os outros recordar
Sonhos, numa praia sem esferovite a ver,
Numa água não pintada com petróleo a boiar...


Será que esse Planeta existe? Tenho Fé!
Pois, de outro modo, interrogo-me, AFINAL,
Que viemos fazer neste Mundo? Aplaudir de pé,
O Desgraçado afogado neste Pantanal?
-------------
Adriano Gminho
Forte da Casa
11-7-2004
10H00

Poema V

Flauta Sonora


Olhar o Mundo em redor,
Embrulhar-me na lã da sua manta,
E, lá em baixo, a cidade que desencanta.
Ser mais simples que um pastor,


Ouvir a melodia numa flauta sonora
De simples cana silvestre da montanha,
Ou o ondular d'uma seara tamanha,
E ter espanto ao ver nascer a aurora


Ser simples, ouvir o vento na giesta,
Ver tudo no infinito azul - algures -!
Mesmo sem as amareladas flores,
Ou os zumbidos da Primavera em festa...


Ser simples como o pastor,
Olhar um Mundo diferente
Apreciar, sim, a Natureza dormente.
Contar as ovelhas em redor...



--------------
adriano gominho
F. Casa, 11-7-2004, 10h00



Poema VI
Jardineiro simples...


Ser simples jardineiro,
Viver por entre as flores,
Ter por companhia o dia inteiro
E o zumbido das abelhas multicores.


Espalhar água nas vivas pétalas
Dos brancos lírios viçosos,
Ver as dálias recurvadas - aquelas
De vivo roxo - nos cantos apetitosos,



P'ra rapazes e meninas na tarde finda,
Quando o Sol morre e não nasce a Lua,
E eles, aos pares- qual rosa encarnada -
Na solidão dos lampiões iluminando a Rua.



Ser simples como o artista jardineiro,
Que vê em cada flor a transcendente beleza,
Do branco jasmim ao cardo traiçoeiro,
Todas lindas flores da Mãe-Natureza.



---------------
adriano gominho
Forte da Casa,
11-07-2004
Aos jardins de S. Nicolau - Cabo Verde




Poema VII

Abrir a janela


Abrir uma janela pr'o mar,
A mente pr'o Além
Da Terra no Universo estrelar
Aguardar a tarde que aí vem.


Abrir a mente pr'ó Além,
Pois aqui estamos de passagem,
E depois de Nós, alguém
Virá retomar a mesma Viagem.



Abrir a janela à aragem
Ver as cortinas como velas
Empurrando-nos na viagem


Para outra Margem onde nelas
Consigamos ter coragem
E caminhar com as nossas mazelas...


--------------
adriano gominho
22-Julho-2004


Poema VIII

Ser Simples,
Um ignorante neste Mundo:

Ser simples, nunca ter ouvido falar
D'Einstein e sua teoria louca,
Não conhecer minas de matar
Quem apenas semeia a mandioca.


Ser simples, ignorante e nunca encontrar
Genocídios de povos diferentes,
Fome na Terra d'água pr'o mar
Ouvir risos de ricos sorridentes,


Em Palácios d'Ouro e Petróleo,
Donos deste Mundo e não só,
Pois chegada a Hora é sem óleo
Que resvalam para simples cova só,


Sem Glória, sem vã Fama
- Quais fogos-fatuos - breves,
Extinguindo-se a breve chama
De pobres, ricos e seus almocreves,



adriano gominho
Lisboa, 22-7-2004


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DO LIVRO VINTE SONETOS A CABO VERDE,por adriano gominho
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Na ponta do finito cais
(A todos os que tiveram vontade de partir e ficarm nas ilhas de Cabo Verde)


SONETO I

Na ponta do finito cais

Na ponta do finito cais, no silêncio das ondas parou,
vendo o Ilhéu espadas de luz espalhando.
Na ponta do finito cais o mar contemplando
e o céu pintado p'lo fumo do vapor que zarpou.


No porão fundo, o seu infantil sonho parou,
o sonho de deixar as negras rochas paridas
das convulsões de lavas, dias-há havidas
i'nda o revolto mar a costa agreste galgou.

Na ponta do finito cais, vendo o falucho ancorado,
enquanto o vapor na Ponta de S.Pedro fugia
via o ignoto mar sem destino, e eu acordado...


Assim sonhava um ilhéu, e o Sol falecia
no mar largo e o solitário no cais fincado
contemplando, outra vez, o pôr-do-Sol desse dia.


Relembrando Mindelo 1950
adriano gominho


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HOMENAGEM E RELEMBRANDO TIMOR, onde o autor viveu de 1962-1975)


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POEMA I

Catando o bago do café

Alongam-se braços desnudados,
curvam ramadas tomadas de bolores,
cantam o colhem os bagos,
no silêncio das matas e seus odores.


Venho à janela. Contemplo essas timores,
na simplicidade de gentes sem pressa,
catam as cerejas e colocam-nas em tambores,
sacas de palha ou cousa que pareça.


Vermelhos bagos que enfeitam a mata,
escarlates cerejas pintalgando o chão
catadas uma a uma sem falta,
delas dependem o ganha-pão!


Findo o dia, tarefa finda,
mãos meladas, vestes pobres rasgadas,
a caminho das palapas, lá longe ainda,
com filhas às pernas alapadas.

N.A.
timores - timorenses
palapas - palhotas

o autor:

adriano gominho
ex-administrador de Concelho de
Ermera -Timor 1968
Lisboa 2/2005
adriano.gominho@sapo.pt



===============OUTRA VEZ, POEMAS A CABO VERDE==============


POEMA II



Lua, candeia dos pobres

[aos habitantes dos bairros pobres de Mindelo -ano de 1950]


Ilhéu na superfície do mar sem estrelas no céu,
por companheira a ilha Santo Antão guardando,
lá vai a Lua que Monte Cara está alumiando,
cansada candeia, sem halo, nas núvens sem véu...


Lua sem halo no céu que chuva não deu,
pensa o catraeiro que bote vai varar,
após uma dia na baía sem nada catar,
e a horta seca, sem água - Sina que não valeu!


No ar morno o cheiro a carvão d'outrora,
meu Deus, outros tempos que já lá vão,
em que abundava peixe pela borda fora...


Agora, nem vapor, nem chuva nem carvão,
e difícil fuga para a pobre Europa de agora
para aonde alguns chegam, outros não!


[Relembrando Mindelo, ano de 1950]

adriano gominho
Portugal,
7.02.2005



POEMA III

Carta de quem chegou

[de um amigo que fugiu para Holanda, em 1950]


Num vapor de canudos, em dia de bruma,
numa tarde cinzenta de Setembro parti,
olhei as ilhas o mais que podia e então senti
à minha volta já não haver senão escuma.


Foram-se os dias, vieram longas noites de bruma
até ver terras de Holanda - a Europa sonhada -
terra de Castelos de Oiro, Prata e Fada encantada
sonhos e Fantasia do menino-ilhéu, mais uma...


Sonhos, meu velho amigo, mil sonhos desfeitos.
Não encontrei as nascentes de oiro e prata
deram-me trabalhos pesados em portos suspeitos,


onde a escuridão encobre a sucata
por onde vagueia gente boa ou com defeitos,
que bebe, que ri, que chora, que ama e mata...




POEMA IV
[Soneto a um emigrante de Cabo Verde]



PÉROLAS DO MAR

Casco negro no mar azul anilado
Lá vai meu vapor grego de salvação,
Leva a bandeira d'um longínquo Japão
E eu, à proa, p'las saudades magoado.


No mastro o pano é branco-encarnado
No seio do céu de fumo que se esvai,
E eu, um fugido destemido, no porão vai
Procurar Destino na ilha-madrasta negado...


Saúda-me em rasantes voos branca gaivota,
Chora o meu violão na solidão do mar,.
Trinam as cordas e eu rezo à Santa devota


Suplicando-Lhe que ao Destino me deixe chegar
Para Lhe poder ofertar a mais valiosa conta
Feita de simples pérolas catadas no mar...


Dos "vinte poemas ao Mar de cabo Verde"
adriano gominho,
Mindelo, 1954





A TIMOR





TIMOR, SIMPLES FLORES DO CAFÉ

por adriano gominho
[Poesia]



POEMA II


Flor do café



É manhã. Venho à janela,
Escuto a Gleno susssurrando
Oiço os loricos executando
Nas verdes copas sinfonia bela...


Brancas nevoa nas rochas-uma Nau
Com preguiça de velejar -
O verde das madre-del-cacau
Torna-se mais verde ao despertar...


Canta o galo num quintal silencioso
Responde a cacatua no seu poleiro
Grila a cigarra no mato tenebroso,
E eu, vendo o Mundo num outeiro.


Galga o Sol, brilha o cafeeiro,
Brancas flores simples maravilhas,
Baloiçam no fresco do perfume ligeiro
Naquele silencioso mato de vidas.


N.A.
madre-del-cacau - árvore de sombra ao café em Timor

adriano gominho
Relembrando Ermera - Timor 1963




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POEMA III


Transportando o bago do café




Dorsos curvados, pés na lama
Rumo ao cimento quente dos terreiros
Acarretando às costas as sacas e a Alma
Aquecidas p'lo sol dos longos carreiros.


Despejam os bagos com suor,
Preparando-se para nova jornada
Esfregando os arranhões de Dor,
Ainda há mais uma longa caminhada...


Rolam nos dentes dos engenhos os bagos,
Solta-se a vermelha casca de sangue
Misturam-se o Suor e a Dor,
É dura a Vida servida aos tragos...


Cai a noite no terreiro de cimento quente,
Cala a floresta, agora com outros sons,
E as timorenses, cansadas, de corpo e mente,
Seguem - amanhã é outro dia em outros tons?


adriano gominho
Hatolia - Timor - 1963
Lisboa 2005


=====À ILHA DE S. NICOLAU - CABO VERDE=====


MUROS BRANCOS DA TABUGA
[Cemitério de S. Nicolau]

Tamarideiros com troncos,
Na direcção do vento do suão
Curvados,
Folhas zumbuindo,
Quais lobos famintos,
Ramos desnudados sacudidos,
Negros e famintos corvos,
Nos muros brancos pousados.

Silêncio...
Silêncio...

Vento assobiando nos tamarindeiros,
Grilos nas fendas das pedras
Batucando,
Pardos pardais nas ramadas
Das acácias de amarelo floridas
Saltitando.

Silêncio...
Silêncio é meio-dia.

Brilha o Sol,
Num céu azul.
Ao longe, rosna o Mar mansinho...
Uma cabra, empoleirada num cerro,
Berra chamando pela cria...
O chão de secura é um espelho...
Brilha o muro de branco caiado
No cemitério em talhões dividido:
Para cristãos,
Para judeus,
Para os ceifados
Da fome de quarenta...

Silêncio...
Silencio...

Vento uivando
Ramos de acácias desnudados,
Vencedoras de passadas secas fatais.
Lá dentro,
Nos muros da Tabuga,
Papai, mamãe, irmã,
Embalados pelo sibilar do vento,
Sono Eterno Dormem...
Repousem em Paz!
Nada mais vos posso desejar.

Adriano Gominho
Fevereiro 2005





Adriano Gominho / Mindelo 1950 -


A ESPANHA


O bosque dos 192 ausentes...


Hastes d'esguios 192 ciprestes,
Que arranham o céu de chuva por cair,
São Almas sem Corpos que arrancastes
Do seio dos vivos felizes a sorrir,


Na Primavera de 11-M i'nda por vir!
Porquê? Interrogo os filhos todos,
D'uma Religião em que o advir
Da Felicidade promete a rodos!


P'ra onde, neste Mundo desatinado?
Que outro Mundo vos cedem,
Se nem este tendes por achado?!


Os aparos afiados desses ciprestes escrevem,
No céu de TODOS, as palavras Crueldade
E Perdoai-lhes, Pai, não sabem o que fazem!

TRADUÇÃO PARA ESPANHOL POR LUIS GOMINHO:

El Bosque de los 192 ausentes



Ramas de delgados 192 ciprés,
Que rascan el cielo de lluvia por caer,
Son almas sin cuerpos que has arrancado
Del seno de los vivos felices a sonreir.


En la primavera del 11-M, aún por venir,
¿Porqué? Interrogo los hijos todos,
De una Religión en que lo que está por llegar
De la felicidad promete um montón


¿Para donde, en este mundo desenfrenado?
Que otro mundo os ceden,
¿Si ni siquiera en este lo teneis por allado?


Los lápiz afilados de esos ciprés escriben,
En el cielo de TODOS, Las palabras Crueldad
Y Perdonales, Padre, ¡no saben lo que hacen!




adriano gominho
adriano.gominho@sapo.pt

(Singela homenagem aos
massacrados do 11 M.2004)
Lisboa 11-03-2005






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DO LIVRO DO AUTOR


Título: Homens de Rostos Queimados Vindos das trevas do Oceano
- Composto em: 1999 -

Revisto em 2005

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Poemas livres, sem rima...
à ilha de SÃO VICENTE de Cabo Verde, Tomo I
(referentes à década de 1950 )

o autor cabo-verdiano:
Adriano Gominho


POEMA UM

(Vida de menino pobre da ponta-da-praia
que catava restos de carvão para vender, ano de 1950)

Rapazinho de carvão de "rocega"

Maré baixa
ondas brandas
morrendo...
Toni,
de calções furados,
lata na mão
na água turva
se afunda...
Grãos de negra pedra,
das lanchas de carvon
pelos fundos vindos,
às mãos parar...
Pedrinhas brilhantes,
negras como o Toni,
na lata
amontoando-se
vão...

Toni,
um rapazinho,
como tantos
pela sorte
renegado,
cais de cimento,
com Sol-posto
por companheiro,
se despede,
pela Rua de Coco,
vender vai ...
Dez tostões o quilo,
quem compra?
Um vapor na baía
três vezes apita,
da negra rocha de
S. Pedro
despedindo-se...
Toni,
debaixo do coqueiro,
carvão de rocega
vai vender...
Passam pessoas
a passos
apressados...
Toni,
cansado,
desiludido,
carvão de rocega,
quer vender
mas sem ninguém
por atender...

Monte Cara,
tenta consolar
o pobre Toni:
bem te disse,
menino,
quando
da quarta classe,
que vida
nesta baía
já não havia...
Agora?
Em mim
acreditas,
menino mofino!?
Toni,
para um vapor olha
querendo fugir
e ficar grudado
à terra,
ao carvão de rocega
de alma e coração
chafurdado...
_______________
adriano gominho
Mindelo,15 de Junho de 1950

*****

(Dedicado à cidade de Mindelo - S. Vicente,
aquando da feitura do meu exame da quarta classe da primária,
ocorrrido em Julho de 1950)

Poema dois

Viva aquele bolo,
viva aquele vim,
viva aquele pai....
Gritam os garotos,
grande façanha,
para pequenos
de dez anos apenas,
a feitura da quarta classe
de primária chamada.

Viva aquele bolo,
viva aquele pai....
...
Em louca correria,
para a Pontinha
seguimos,
ilha de S.Antão,
de nuvens tapada,
contemplando...

Viva aquele bolo...

Monte Cara,
de face empedernida,
carrancudo como sempre,
olha-nos,
perguntando:
e agora,
meninos meus,
que ides fazer,
nesta pobre terra,
nestas pobres ilhas
que um Deus
no oceano espalhou?
Ainda não sabemos...
Em coro,
à rocha respondemos:
ainda não sabemos...

As folhas caíram,
as chuvas não chegaram,
os anos passaram...
E agora?
A chamada:
Florival?
Para Alemanha
partiu...
Floriano?
Numa manhã de névoa,
num cargueiro cinzento,
fugiu...
Se,
ao porto de salvamento
chegou,
não sei!...
Os outros?
Tantos, Nossenhor...
Chico?
Toi?
Adelino?...
outros mais?
Não sei deles...
Só sei que,
estavas certo,
Monte Cara,
ao dizer-nos que
nestas escalavradas
encantadoras ilhas,
de Cabo Verde por nome,
futuro para todos,
no horizonte não vias...
Para mim,
para os outros
da primária saídos...
Realidade nua e crua!

Viva aquele bolo,
viva aquele vim,
viva aquela mãe,
viva aquele pai....
E tu?
Monte Carrancudo,
à tua sombra,
dormindo não fiquei,
para um dia poder
dedicar-te,
cinquenta anos,
depois do Mundo
vezes mil
ter rodado,
estes singelos versos....
_______________
adriano gominho
Mindelo, Junho de 1950

*****

Poema três

Cais de madeira

Estacas roliças
no lodo espetadas,
limos verdes,
cracas,
caranguejos
pelas fendas escuras
trepando,
botes multicores
de tábuas mal calafetadas,
a maresia,
cheirando
nas brandas ondas
baloiçando...
Rijos catraeiros,
de rostos,
por mil sóis,
queimados,
ombros largos,
músculos de ferro,
mãos
pelos longos remos,
calejadas.
Estacas
no lodo profundo
espetadas,
cais de madeira,
feito
pelo tempo,
pelas ondas,
pelo mar
carcomido...
Catraeiros,
de bonés ensebados,
pele de castanha
pela dura labuta
de riba de mar
passada.
Remos
pelo sal,
e suor
esbranquiçados
espadas cintilantes,
águas calmas
violando,
velhos botes,
velhos catraeiros
ao velho cais,
de madeira feito,
rumando...
Ao fundo,
a vetusta Alfândega
da Lei,
de portas em arcos
para a Grei
escancaradas,
sedentas...
Passageiros mareados,
trôpegos,
do falucho
Santa Maria,
desembarcados.
Terra sabe
de S. Vicente.
Cheira a maresia,
a carvão
de pedra chamado...
Saudades,
saudades...
As cargas,
em silenciosas zorras,
Rua Lisboa sobem,
no negro basalto,
rastos do sebo viscoso...
deixando...
Nos guindastes,
de paus feitos,
gemem roldanas
de rija madeira,
guincham cabos
de aço desfiados
em tons desafinados,
não sei,
se
mornas
chorando,
ou
coladeiras
cantando.
Estacas no lodo
espetadas,
ao sabor das ondas
em cavos
profundos rumores,
rangendo
corpos suados,
no escuro do cais
colados...
_____________________
Mindelo, Junho de 1952
adriano gominho

*****
Poema quatro

(Dedicado à cativante Praça Nova, em S. Vicente de Cabo Verde,
ano de 1954)

Praça Nova


Coreto de ferro
de ferrugem tomado,
telhado em bico,
pelo tempo castigado,
o céu desafiar querendo...
Lá dentro,
no alto,
instrumentos
de sopro
no corrimão
dormem encostados,
à espera de
nostálgicos músicos.
É domingo!
Boquinha da janta.
Banda de Nhô Reis,
velho amigo
dos alunos do Liceu,
ao estrado sobe...
Ta-ta-tan...
Ta-ta-tan...
Há música na Praça....
O Grémio,
miragem nossa,
bem iluminado,
gente branca da terra
alberga,
de charutos e cigarros
americanos
nos dedos fumando...
Nós, alunos de então
com treze primaveras,
apenas,
à roda do cimento
da Praça Nova,
nosso pau de almanjarra
rodando,
olhos bonitos,
às meninas bonitonas
a cada volta
da nossa nora,
fazendo...
A Bia?
Está alí,
no banco,
da acácia
de amarelo florida...
Secas vagens,
nossas cabeças,
matraqueiam...
Outra volta à nora.
A Bia?
Para a casa regressou...
apagou-se-me
a Luz na alma...

*****

Poema cinco

Homenagem no Dia do Pai

(Homenagem a papai e mamãe,
que me puseram no Mundo,
para que, aqui e agora, lhes pudesse prestar,
via Internet, esta modesta homenagem)

À memória do papai, professor Luís Gominho
(I Centenário do seu Nascimento)
1985-1995

Um dia disseste-me,
papai,
por carta a bordo do paquete Timor
recebida,
que do Oriente Extremo,
um nosso progenitor,
de nome Jaco,
viera...
Corria o ano de 1962,
e eu com apenas vinte
e poucos anos...
Pensei,
nas verdes águas do Índico,
navegando,
nos Homens de Rostos
Queimados,
Vindos do Oceano,
que nos deram origem,
título escolhido,
para este modesto trabalho,
a vós dedicado,
papai e mamãe...
De todos os poemas livres
que até hoje escrevi,
foi este
o mais difícil de gestar:
por vos querer muito,
não encontrando
na minha memória
palavras com força
para
minha gratidão infinda
vos expressar,
e ter
olhos de lágrimas
toldados...
1995,
foi o ano do
I centenário
dos vossos nascimentos.
Hoje,
Dia do Pai,
19 de Março de 1999,
vosso nome singular,
na Internet
porta aberta e amiga,
pela sorte e técnica
no meu caminho posta
posso cantá-lo
para dizer-vos
que as vossas sementes
em terra fértil
cairam
e frutos mil
vai dando:
filhos, netos, bisnetos...
que vos saudam
com gratidão...
Ao Professor
Luís Gominho
meu papai,
o grande mestre,
cuja vida
a várias gerações
de ilustres cabo-verdianos
ao ensino dedicou,
à Amélia,
minha mamãe,
que sempre o acompanhou,
afirmo-vos
que
esquecidos não estão
pois
no céu ?
ou no cyberespaço infinito?
algures, não sei onde!
nas vossas Eternas Moradas,
quiçá,
a minha voz lá chegue,
na certeza que, para milhões,
vossos nomes cantarei,
pois quem
filhos tem
jamais morrerá.
Contem comigo...
_______________
adriano gominho
Lisboa,
Portugal,
Dia do Pai,
19 de Março de 1999,o último ano do vosso século)


*****

Poema seis

(Poema dedicado a Dr.António Aurélio Gonçalves,
nhô Roque,
meu professor de Filosofia, no Gil Eanes, em 1956 e 1957)

"Tâ Triste ê Sabe"
(É bom sentir-se triste)

Praia da Galé,
tarde morna de 1956...
Pássaros de arribação,
de pedra em pedra
saltitando.
Lá longe,
estátuas perenes,
carçaças de vapores
o mar
lambendo,
negras cavernas
enferrujadas,
na Praia da Galé,
na mornura de uma tarde
gemendo...
fofa areia
de conchas
pisando
um vulto caminhando vem...
É nhô Roque,
o Filósofo,
passeio vespertino
dando...
Salvou-me
com aquele sorriso seu,
praia fora
desapareceu,
na bruma das sulcadas
marcas na areia
apagando.
Na minha memória,
uma aula de Filosofia,
do grande mestre,
nhô Roque. No meu ouvido
zumbindo.
Frase simples ouvi:
"Tá triste ê sabe..."
Contava nhô Roque,
certo dia, pela porta do Mercado
passando,
a esmola de costume,
uma anciã lhe pediu...
Meus bolsos
revolvi,
cinco tostões pretos
achei...
Obrigada,
respondeu-me,
obrigada,
senhor doutor!
A anciã fitou-me,
mais uma vez:
hoje estou triste,
não sei porquê?
mas "tá triste ê sabe"...
Na minha caminhada
para o Gil Eanes
como destino,
meditando fiquei,
nas palavras
da boca da anciã
ouvidas:
tristeza,
sabura,
melancolia,
sentimentos
para meditação...
Anos volvidos:
como as ondas
nas carcaças de limos ferindo,
enferrujadas barcaças na Galé
soube da trágica notícia
da morte
do querido nhô Roque,
atropelado,
numa rua do
Mindelo,
sua cidade
Fiquei triste!
Ironia do Destino:
um homem
que só a pé gostava de andar...
Fiquei triste!

Sim, Nhô Roque,
lá onde estiver,
a indelével consolação,
da tua figura
na minha memória
jamais desaparecerá,
enquanto teus passos,
nas longas tábuas,
do Liceu Gil Eanes,
num tum-tum-tum
cadenciado
minha Alma
ouvir...

________________
Lisboa, ano 2000
Adriano Gominho


*****

Poema sete

(A um colega da primária, que, em 1950 engraxava
sapatos na Pracinha da Igreja, e não entrou para o
Liceu, apenas por ser pobre)

PRACINHA DA IGREJA

Fizemos a quarta classe
na Escola da Praça Nova.
Entrei pr'o Liceu
tu não!
Não por ter mais cabeça,
caro amigo Floriano,
mas sim pela marca das ilhas
que,
no teu corpo franzino,
um P grande
da pobreza
marcou.

Um dia,
à sombra da acácia
de amarelo florida,
fui encontar-te,
colega amigo Floriano,
sapatos engraxando...
Falavas,
com inveja,
raiva,
e muita resignação...
dos colegas
que
para o Gil Eanes
iam entrar,
de cadernos,
pastas novinhas,
da Casa do Leão saídos,
sorrisos abertos
nos rostos
estampados...
Disseste-me que,
um dia,
um dia qualquer,
ias fugir,
para terra-longe,
mesmo como moço de câmara,
à procura da sorte...
Um dia,
na verdade,
S.Vicente,
a caminho
de uma Terra-Longe,
deixaste...
Na Pracinha,
teu banco vazio ficou.
Perguntaram-me
pelo rapazote,
que engraxar sapatos
tão bem sabia...
Disse-lhes
que partiste,
para um dia voltar...
Dias, meses, anos...
sobre mares de Canais
navegando,
cobres amealhaste
para uma casinha
no alto do Monte Sossego
construir...
Sonhos,
sonhos,caro Florival!
Ao chegar,
NADA...
Um irmão teu,
um Caím qualquer,
teus ouros,
tuas pratas,
tuas pedrarias,
tua vida
desbaratou...
Encontrei-te, um dia,
caro amigo e colega,
num banco de jardim,
pedras das calçadas
esgravatando,
em ingente tarefa,
de beata fumegante
resgatar.
Para ti,
cigarros fui comprar...
Estavas doente,
de corpo e alma...
Não sou de chorar,
mas as lágrimas,
aos olhos me vieram...
Lá longe,
numa janela
de verde pintada,
na bruma dos tempos
perdida,
uma morna,
num violão,
chorava:

Mundo bô ê triste...
(Como o Mundo é triste...)
Mindelo, 1964
______________
adriano gominho

*****

Poema oito

(Homenagem
ao relógio do Telégrafo - WTC,
cuja luz nos alumiava nos estudos, em 1950)

RELÓGIO DO TELÉGRAFO
Teu mostrador branco
teus ponteiros
de segundo em segundo
saltitando,
das cinco
da madrugadinha
à hora da nossa partida
para Gil Eanes...
Tua luz amarelada,
folhas de apontamentos
compêndios raros
alumiavas...
O primeiro a chegar
na alma do teu foco
ficava...
Os outros
onde podiam
e luz havia...
Madrugadinha...
As mulheres,
de latas na cabeça
para o "Caizinho",
passavam,
ancas bamboleantes,
e grito estridente,
de "tem li"...
Catraeiros sonolentos,
para a vida
no mar da baía
vão indo,
andando...
Relógio do Telégrafo,
teus ponteiros pretos
avançam,
e nós meninos
de então (1950)
homens de agora ,
com saudades,
mesmo
a título póstumo,
vivamente,
Relógio do Telégrafo
te saúdamos...

______________
adriano gominho
ano 2000


*****


Poema nove

Lembrança do Kodak, um catraeiro amigo,
(ano de 1950)



Kodak
Dia da chegada
do Ildut,
veleiro da esperança,
de S. Nicolau
vindo
pelas mãos do valente
capitão Zézinho
amigo...
São sete da manhã.
No frio cimento do cais
aguardamos a chegada
dos cachos de bananas
amarelas e frescas,
de S. Nicolau
vindos...
Kodak!
Há encomenda
para nós?
Sim meninos,
trago bananas
empalhadas
para a Djinha,
tua titia,
entregar...
Kodak,
de rosto queimado
pelos sóis da baía,
olha-me
de alto a baixo,
dizendo:
vais avisar a tia...
Corria eu,
Rua de Coco abaixo,
a caminho da Salina,
levando a nova do Kodak .
Oxalá, um dia,
possa encontar-te,
Kodak,
e mostrar-te
este modesto poema
a ti dedicado...
Queira Deus que sim!


*****


Poema dez
(Dedicado ao Padrão a Gago Coutinho e Sacadura Cabral,
em S. Vicente, Cabo Verde, na base do qual eu me sentava
para estudar, em 1950)

Padrão de branca pedra

Coluna hirta
de alva pedra,
de além-mar
vinda,
céu desafiando,
pela branca espuma
de um mar revolto,
embalada...
Homenagem
de Cabo Verde
e ilha de S. Vicente
a Gago Coutinho
e Sacadura Cabral,
com o Monte Cara
por testemunha...
A Cruz de Cristo,
no topo do padrão
erguida,
novos rumos,
aos emigrantes
alumiando...
Das negras rochas
transplantada,
singela mensagem
na tua branca pedra
gravada...
Vida dura
do emigrante
pelo teu sextante
guiada...
Negras letras
na branca pedra
sumidas,
ao Mundo,
aos crioulos,
lembrando
feito valoroso
na bela baía.
Homens do Mundo
de outras terras
partindo
à descoberta de
novas gentes,
novos rumos desvendando,
como
todo o cabo-verdiano,
destemido
intrépido,
longe da sua terra
o faz,
também...

______________
ano de 1950
adriano gominho


*****

Poema número onze

Homenagem à dura vida das mulheres-carregadeiras do cais
nos anos cinquenta, em S. Vicente de Cabo Verde)

(Às valentes mulheres-carregadeiras do Mindelo - 1950

Chamo-te Guida,
podias ser Chica,
Tánha, Bia ou Silvina,
valentes mulheres
Vejo-vos a todas
de ancas bamboleantes,
canhoto na boca,
saias p'la cintura,
por cordas presas,
no velho cais de madeira
à espera de fretes,
sentadas
milho branco de Angola,
bananas de S.Antão,
ou S. Nicolau!
esperando.
Tánha e Bia juntas,
Rua Lisboa acima
sobem,
sacas de milho
dente de cavalo,
às costas
transportando...
Suor nos rostos
escorrendo,
pés
no negro basalto,
figuras desenhando.
Mulheres de aço,
rijas como
negras rochas
de Cabo Verde,
do vulcão paridas
Tánha e Bia,
sorridentes,
Rua Lisboa acima
vão indo, andando,
com saca
de milho dente de cavalo,
às costas
transportando.
Suores e sorrisos
nos rostos sofridos...
Dura vida,
vida dura
da mulher-carregadeira,
de um S. Vicente
de outrora, (1950)
só no pensamento
dos mais velhos, como eu,
infelizmente ainda presente...

adriano gominho
*****


Poema número doze

Cais de cimento, hoje em ruínas
(ano de 2002)

Ferros polidos,
corrimão sem fim,
gasolinas atracados,
marujos escadaria
subindo...
Nossos bolsos
mancarra quente
queimando,
canelas com feridas
nas ondas sarando,
melado zimbrão
no botequim
a litro comprado...
Farol no ilhéu
piscando...
Luzes de vapores
horizonte azulado
riscando...
Ondas mansas
escadas acima
lambendo,
catraeiros,
no botes
verduras
metendo,
negócio na baía
procurando...
cigarros da estranja,
calças de ganga coçada,
vazias latas de biscoitos,
nos salões servidos...
Ao longe,
baloiçando,
botes vazios,
negros faluchos,
fantasmas,
contrabandistas,
lanchas de carvão,
lampiões,
no espelho de cristal
reflectidos...
Brilhantes pontinhos ...


Outros sitios do autor:

TIMOR, MEU TESTEMUNHO 1963 a 1975


- FIGURAS TÍPICAS DE S. NICOLAU
- Caminho Longe Para s. Tomé

Homenagem aos bravos retornados das ex-Colónias (1975-2005).