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CIBERESPAÇO II "POESIS" (poesia)- Criação literária: por ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO adriano.gominho@sapo.pt adriano.gominho@clix.pt Alguns dados biográficos do autor: Idade: 66 anos Profissão:Chefe de Repartição - Aposentado da Aviação Civil, em Portugal. Natural: S. Nicolau - Cabo Verde Residente: Forte da Casa - Portugal adriano.gominho@sapo.pt Actualmente: ciberpoeta/escritor e, para aproveitar ainda a mente, estudante do IV ano de Direito, numa Universidade em Lisboa. [EDIÇÃO BI-LINGUE PARA A NET] Carta de un feto Ya era vida, ya vivía vivo En el vientre de la querida Madre mía El Hombre – ese lobo – en su elección - Dijo que vida aún no la tenía. Quería venir al mundo, si, ¡tenía derecho! Solo quería ver el Mar e las Montañas Pero vosotros – Hombres – a vuestro querer Con hierro me sacaron de las entrañas Saddam ha sido juzgado y condenado Ha tenido derecho a defensa, ¡sin embargo! Yo no he sido escuchado. En un mundo de maldad, Y también condenado sin piedad. ¡Pero les digo la verdad! Venir a ese vuestro mundo malo, Solo vuestro – de los Hombres sin piedad. Prefiero dormir mi sueño profundo. Autor; adriano.gominho@sapo.pt Tradução livre de Luis Gominho [filho do autor]/ Espanha 31-5-2007 ========================================== [ - CRIOULO - Caboverdianidade, como lhe chamaram e bem...] INTRODUÇÃO: O ano findo foi ano da protecção das línguas/dialectos em via de extinção no Mundo,[e passou despercebido, meu Deus]. Será que vai acontecer o mesmo como aos Dinossáurios, por todos historicamente conhecidos. Quando menino, em S. Nicolau de Cabo Verde, onde meu falecido pai, Luís Almeida Gominho foi professor de muitas gerações, NUNCA deixou-me falar com ele em crioulo, dialecto considerado e mal, menor, pois o que estava em voga era o "português da Metrópole - de Portugal". Reservava esse dialecto natal para falar com a minha mamãe. Hoje, volvidas várias décadas, não posso deixar de dar razão a ambos - o português é a língua em que estudo numa Faculdade de Direito de uma Universidade em Lisboa. E o crioulo, a [caboverdianidade] - uma espécie em evolução! - passou a ter o lugar de honra em Cabo Verde, ao lado do português lusófono, ambas manifestações línguisticas que, daqui, saúdo. Assim, e enquanto não conseguir traduzir para o crioulo a teoria de Relatividade de A. Einstein, vou tentando poetar em duas línguas, as que me são mais queridas: crioulo da ilha de S.Nicolau e Português lusófono, minha língua de estudo. o autor de S. Nicolau (meu crioulo) Adriano Gominho Maio de 2007 Introdução O que passá foi um one de gardá aquêle manêra de falá de nôs pove. Dôte manêra, criôle tá cabá moda quês biche d'antigamente, que tude gente tá conchê. C'onde mi era menine, na idja de Sanicolau, donde nhá pai, LUIS GOMINHO que Deus haja, era professor de mûte gente, NUNCA falá cm'a ele em criôle (ele catá t'xôme) - o que era b'nite era falâ português de Portugal. Um gardá criôle p'a falá que nhá mãe e nhás amigues.... Têmpo passá. Estába d'rête: nhá lingua de estûde na Lisboa ê português, mas na Cabo Verde tûde gente tá falá agora sem brigonha em criôle, lingua que junto má português tá servi nôs pôve. Até ranjá coraja para escrevê côsa de gênte grande em criôle, côsa dificil, mi tá continuá ta fazê poema na nôs criôle . O autor de S.Nicolau ( um criôle de Cabo Verde) Criole de Sanicolau/Português lusófono/Inglês Aborto Carta de um feto (republicado na Net, hoje, 6 de Maio de 2007 - DIA DA MÃE) Já era vida, já vivia vivo No ventre da querida Mãe-minha O Homem - esse lobo - no seu crivo Disse que vida ainda não tinha... Queria vir ao Mundo, sim, tinha direito! Só queria ver o MAR e as MONTANHAS Mas vós - Homens - a vosso jeito, Com ferro me sacaram das entranhas... Saddam foi julgado e condenado Teve direito a defesa, porém! Eu não fui ouvido, mundo malvado, E também condenado com desdém... Mas digo-vos a Verdade! Vir a esse vosso Mau Mundo, Só vosso - dos Homens sem Piedade, Prefiro dormir meu Sono Profundo. adriano.gominho@sapo.pt Lisboa, 17 de Janeiro de 2007, Publicado no nº186 da"SINETA" Abril/2007 R E F L E X Ã O -1- Se não houvesse espelho? Se catem espedge na Munde? Como seria melhor o nosso Mundo? C'má era bnite esse nôs Terra Não nos preocuparmos com nosso "eu" Sem gente preocupôde que sês pessoa Ter tempo para olhar esse profundo Tê têmpe p'a odjá longe, Mundo, de Vaidades, sem Céu... Munde de vaidade, sem Nhô Senhor... Não ver a nossa face ao léu, Cá ôdjá cara descarôde Ter tempo para olhar o irmão, Tê tempe para salvá sê irmon Todos filhos do mesmo Céu, Tude fidge de mêsme Nhô Senhor Errantes no mesmo chão. Criatura de mêsme tchon... Se não houvesse espelho? riscado! Se cá tem espêdge mesme riscôde Não viamos nossa imagem ofuscada Nôs gente catá ôdjá sê cara sômbrôde E sobraria tempo pr'a ver o outro lado... Ta f'cá que têmpe p'a odjá longe... Olhar e ver outra esfumada margem Odjá mesme que névoa na ôdje E perguntar então pelo abandonado Chemá p'aquele desgraçôde, O que labuta mesmo sem miragem... Aquele que ta trabâdjá sem future... adriano gominho, adriano.gominho@sapo.pt Lisboa, Outono 2005 ====================================== -2- A TIMOR: Díli, noite de Lua Cheia - 1963 "Beiros", luzes no mar de coral Rubras acácias pingando pétalas Vento quente vindo do litoral Recurvadas palmeiras no "mangal". Abeiro-me do Farol ainda quente No cimento do banco estalado O calor do dia ainda se sente A Lua no Ataúro, mesmo ao lado! Miro o horizonte distante, Um rapaz do Verde Cabo ido Lembro-me da Escola, diante D'um Timor ao Minho entendido... Balançam as palmeiras no espaço, Sinto a brisa na face de rapaz Vejo timorense de filho no regaço Colhendo pétalas d'Amor e Paz. N.A. "beiros" - barco típico de Timor, "mangal" - vegetação costeira ___________ Adriano Gominho, alferes miliciano, Díli,12/1963 adriano.gominho@sapo.pt =================================== Criôle de S.Nicolau TIMOR, Dili, num nôte de Lua de bóbra-fóga- 1963 Bôte, luze na mar, na rócha, Flor d'acácia encarnôde na calçada Vente quente t'chgôde de mar Coquêre inclinôde na prainha. Mi tâ sentâ na Farôl quente Naquêle banco estalôde Ta sinti calôr de Sol d'esse dia E Lua na idja de Ataúro, tá odjôme... B'siá horizonte longe... Um rapaze d'jgóde de Cabo Verde Na cabeça aquêl S'cóla Central de S. Nicolau Na terra- longe - de Minho a Timor. Ta banâ coquêr na céu azul s'curo Na nhá cara de m'níne quêl mormança, Tá odjá timorense de fidge na ragôce Tá catâ flor d'Amor e de Sossêgo! Adriano Gominho Alferes, Timor 1963 N. A. "beiro" - bote de Timor "mangal" - planta na mar -3- ================================== Oliveira da Igreja S. Domingos Lisboa O Sol faz brilhar o mármore de D. Maria, As esplanadas cheias de gentes desvairadas É dia de Primavera de Sol, ao meio-dia - Miro-te oliveira florida de ramadas caídas. Por debaixo da sombra, não na soleira Da porta uma guineense, longe da Guiné, deitada Sobre cartão, à sombra da oliveira Longe da palhota, lá longe deixada... Teu olhar triste olha a portada da Igreja, Teus compatriotas passam em algazarra, Não podes caminhar! Nos teus olhos a inveja, De não poder mirar campos de arroz ou mancarra! Ao invés, velhota à sombra estendida, Não vês teus netos brincando às escondidas, Vês sim, aos bocados, extinguir a tua vida, Miras uma Lisboa não tua, de gentes perdidas... ===================================== -4- Adriano Gominho adriano.gominho@sapo.pt Poema elaborado, hoje, 12.05.06, ao ver uma pobre guineense, deitada à sombra da oliveira do Largo de S. Domingos - Lisboa Criôle de S. Nicolau - escribide de nhâ cabeça Pê de olivêra na lôrgue de S. Domingos Lisboa Dia de Sol de rachâ pédra, Lôrgue chêu de gente de munde Ê têmpe quente, de Sol d' África, Mi tâ espiôbe, olivêra tchêu de rama de flor.. Debôche de bô sômbra, ca ê na solêra De bô porta, guineense, longe de bô terra, dêtôde De cima de papêlon, câ ê sombra de bananêra, Longe de bô palhota, que bô dx'a ... lâ longe... Bôs ôdge ta espiá p'a Lorgue d'Igreja, Bôs irmon tá passá, ta fazê barudge Bô câpôdê andâ! Sofrimentos na bô cara Bô c'âtâ odjá bô Guiné d'arrôz, de mancarra! Ó munde bô ê triste! Bêdja na sombra dêtôde, Bô c'ata ôdjá bôs nêtes tá brincá chichela-chiche Bô vida ta cabá, em pinguinha, na terra longe, Bô ta morrê na Lisboa que câ ê bossa - ôtes gente... Adriano Gominho adriano.gominho@sapo.pt --------- Poêma fête, ôje, 12.5.2006, cônte me odjâ, um mudger pobre, de Guiné, dêtôde na sombrinha de um pê de azeitôna na Lorgue de S. Domingos- Lisboa, Sec XXI ===================================== POEMA -5- As crianças do Sahara Ocidental Barraco de barro amarelo, Amassado com lágrimas e lama E na Alma pena mete só de vê-lo Aqui tão perto - sem eco que não clama! A chuva madrasta por castigo Cai do Céu e tudo destroi Fica a lama e o barrote antigo No Deserto espalhado - tudo Doi! Um Hospital sem camas onde a vida Se esvai, lentamente, no duro chão! Deste lado, a opulenta corrida Onde todos bailam neste Salão! Que Mundo é esse, Senhor? Uns no condicionado ar! Que Planeta nos dás, Senhor, Outros no Deserto a penar! _________________ Poema elaborado, hoje, Abril de 2006 ao ver uma reportagem na TV sobre a fome no Sahara Ocidental Do Livro de poemas do autor: [Vento - Diga-me Aonde?] Adriano Gominho adriano.gominho@sapo.pt ===================================== POEMA -6- IX Quês m'nines na Sahara Ocidental [Criôle de S. Nicolau - Cabo Verde, Composição e tradução livres do autor] Barraca de bôrre marêle, Massôde de t'chôro e lama Ta mêtê dô N'alma, só de ôdjáz, deste nôsse banda - da rica Europa! Tchuba desgraçôde, tá castigâ bem de Céu pá cabâ que rêste, Ta f'ca na chon madêra bêdje E lama espadjôde na Miséria! Hospital ca'tem cama , vida tâ morrê, Na morrinha de tarde na tjôn dure! Deste lôde, ê corrida e festa, - "Globalização" - Tude gente tá badjâ! Ó Mundo de Nhôsenhor? Nhâ mãe!! Bôs fidges b'nite na frêscura de fartura, Ó Nhosenhor que Terra bô dône, Uns tâ gozâ, ôtes tá sofrer atê morrê!... ________________ adriano.gominho@sapo.pt Poema fête, conde odjá na TV, quês m´nines ta sofrê no Sahara Ocidental, 2 de Maio 2006 ===================================== POEMA -7- X A Terra e os Meteoritos Bola azul no seio de pedras rugosas Rodando, gravitando, a caminho do Nada É vê-los nas noites pouco luminosas Cruzando os Céus evitando a derrocada! Nós, cá em baixo, donos do Nada, Guerreando, matando, destruindo! A espada está por cima, afiada, Na estrada do céu que vamos seguindo... Cogito: como seria bom lá prá cima mandar Os Senhores deste nosso Mundo Para visionar o nosso Eterno jogar Nessa roleta espacial dos negros buracos Do Espaço sideral e então pensar Não valer a pena virar o Mundo em cacos. _______________________ Poema escrito, hoje,dia 2 de Maio, oo saber que um meteorito passou pela Terra, em 2004, a poucas dezenas de quilómetros. adriano.gominho@sapo.pt ===================================== POEMA -8- Tabacaria CARAVELA - Rossio Lisboa Foi num três de Maio já lá vai o passado, Nossas caravelas Terras de Santa Cruz achadas. Foi num três de Maio, no Rossio especado Vendo antiga Tabacaria e suas montras fechadas. Havia catálogos, cartas amareladas entaladas Por entre grades de ferro ferrugento... Assim vai Lisboa engolida, lojas abandonadas Na voragem do tempo implacável, ao vento... Requiem para a Caravela d'outrora! Onde estão teus cachimbos vistosos, E teus relógios marcando a hora, E a electrónica de ponta dos "Cassios"? A vida moderna Nada perdoa agora, Diz-se, Adeus, sem mais demora! Adeus, Caravela do Rossio... Adriano Gominho adriano.gominho@sapo.pt Poema escrito hoje, 3.05.2006, ao passar pelo Rossio - Lisboa e ver a antiga Tabacaria Caravela fechada, quiçá, para sempre. ====================================== Poema -9- CEM ANOS DA BICA [19-11-1905 - 19-11-2005] "A Brasileira" Na penumbra dos tempos, ó "Brasileira", vejo-te na névoa dos charutos d'outrora, de poetas e artistas em amena cavaqueira, cem anos é tempo! - eles foram-se embora... Sai uma "bica"? p'ra mesa d'outrora! A conversa vai animada nesse Outono, chega o café quente, fumegando pr'a fora, só falta o cristal d'açucar e lá se vai o Sono... À memória, chamada sentida, em surdina! Eles já não respondem - amigos - é assim a Vida! Tomba a colher no açúcar e repousa a nicotina na chávena quente alapada, na esteira d'outros tempos - um século - não a despedida! E a "bica" ainda aquecendo Lisboa inteira... Homenagem aos poetas, pensadores e à "Brasileira" do Chiado - Lisboa Adriano Gominho adriano.gominho@sapo.pt Lisboa, 19-11-2005 ===================================== Poema -10- [Em criolo de S. Nicolau - Cabo Verde - Cem ône de "Bica"] (Criação e tradução livres, do autor) Ná nébôa de têmpe, ó "Brasileira", Tâ odjôbe na fume de charute d'ôte têmpe, Cantinhe de poeta ta passâ sabe! Cem ones ê mûte tempe! D'jas bá imbora... Um cafê p'a mêsa dôte têmpe! Rodada tá animôde nêsse Outono, Bem cafê quente tá p'ta fume p'a fora, Sô tâ faltâ sucra p'â tra Sone... Lembrança na cabêça de gênte! D'jás bá sê caminhe - ê bida! G'djêr na sucra, tá f'ca mêle de canhôte Lapôde na poêra de têmpe, mûte têmpe, na cambá de bôquinha de nôte! E "bica" i´nda agora tâ tra friu na côrpe de gênte de Lisboa... adriano.gominho@sapo.pt 19-11-2005 Poema - 11 ========================== Às ruinas do Cais de cimento de S. Vicente Calma baía, mancarra quente na mão, velho guindaste de ferro parado, cheias lanchas de negro carvão botes gingando com coisas pr'o mercado! Remos ao alto, braço queimado dos catraeiros da Baía - sua morada- e aquele triste cambar de Sol, tapado de prenhes nuvens - flocos do NADA... Choram as vagas no Caizinho ao lado, gemem ondas na coluna fendida - roncos p´lo tempo nunca apagado, memória e recordação não esquecida, sonhos de menino ainda enganado, ou morna na poeira dos tempos perdida... _ Recordando um S. Vicente dos anos 1950, Tinha 10 anos Lisboa, Nov. 2005 _________________ Adriano Gominho adriano.gominho@sapo.pt ===================================== Poema - 12 Ruina de Cais de C'ment - Sãocente - 1950 Baia d'cêgode, mancarra quente na mon Guindaste bêge de fêr ferrujôde, Lancha carregôde de carvon de pedra Bôtes tá trazê côsa p'a pelorinhe! Reme p'a riba, broce quêmôde Marinhêre na baía sê morada - Triste cambá de Sol, tapôde De fiapa de nuvem prenhe de nada... Tá chôrá ondas na Caizinhe de pêrte, Tá gemê onda na cais quebrôde Grite que têmpe ca tá pagá, Lembrança bem lembrôde, Sonhe de m'nine ainda enganôde, Ou morna tocôde dias-há... AdrianoGominho - Lisboa Nov/2005 adriano.gominho@sapo.pt Poema - 13 ===================================== Castanheiro falso (Campo Pequeno - Lisboa 2005) Não és do campo, amigo, não! Castanheiro na Lisboa atarefada, As falsas castanhas no chão... As amareladas folhas na calçada... Do frio banco de frio cimento Mirando Praça de Campo Pequeno Contemplo-te no teu esquecimento, Na velha Lisboa já sem terreno... No beco, castanhas cinzentas Vendem-se, na Calçada d' Outono. Castanheiro falso não te arrependas, Imagens são miragens, d'um Sonho... Lisboetas apressadas caminham Apressadas, com botas de esquimós, As brancas calçadas pisam Onde um solitário medita a sós... É Outono! adriano.gominho adriano.gominho@sapo.pt Campo Pequeno - Lisboa, Hoje, 9 de Novembro de 2005 Poema - 14 Castanhêre enganôde (Campo Pequeno - Lisboa -2005) [criação e tradução livres de autor de S. Nicolau - Cabo Verde] Bô câ ê de cômpe, nha amigue, não! Castanhêro brôbe na Lisboa fadigôde, Castanha brôbes tâ caíde na chon E bôs fôdjas marelôde na calçada... Deste banco gelôde de s'mente Ta odjá Largo de Campo Pequeno, Ta mirá na bô pênsamênte Nesse Lisbôa bêja sem chon... Na canalinhe, castanha cinzente Tá vendê, na Calçada d'Outono Castanhêro brôbe de cidade cá rapêndê Bôs ôdges ainda tá sonhá tambêm... Gente de Lisbôa fadigôde Tá andá que bota de frio, Tá calcá pedra de calçada E mi tá falá p'a mi mesme... Outono... Adriano Gominho adriano.gominho@sapo.pt Lisboa - Campo Pequeno, Hoje, 9.11.05, 14H00 »»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» POEMA [português lusófono e crioulo de S. Nicolau, do autor] »»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» Poema - 15- Carta de quem chegou, a todos os emigrantes de Cabo Verde [a um amigo que fugiu para Holanda, em 1950 [pa um amigue que fugi pâ Holanda na ône de 1950] Num vapor de canudos, em dia de bruma, Num vapôr de canudes, num dia de névoa Numa tarde cinzenta de Setembro, parti. Num tarde triste de Setembre, um fudgi. Olhei as ilhas o mais que podia e então senti, Me odjá nôs triste idja e um senti na nha À minha volta já não haver senão escuma. Ca tê más nada - só mar e escuma. Foram-se os dias, vieram longas noites de bruma Mute dia passá, depôs d´'jegá nôte de breu, Até ver terras de Holanda - a Europa sonhada - Atê odja terra d'Holanda - Europa sonhôde - Terra de castelos de oiro, prata e fada encantada Terra de castele d'ore, de prata de fada encantôde, Sonhos e Fantasia do menino-ilhéu, mais uma... Sônhe encantôde de m'nine d'idja, más um... Sonhos, meu velho amigo, mil sonhos desfeitos! Sônhe, amigue de pêite, mile sônhe cabôdes Não encontrei as nascentes de oiro e prata Um cá contrá ôdjes d'ore e de prata Deram-me trabalhos pesados em portos suspeitos, êzes dôme trabôdje pêsôde na porto desconfiôde. Onde a escuridão encobre a sucata, Na lugar que escure ta tapá fêrre bêdge Por onde vagueia gente boa ou com defeitos, Donde ta passeá gente de bem e gente mofine Que bebe, que ri, que chora, que ama e mata... Que tá bêbê, tá ri, tá chôrá, ta amá e tâ mâtá... adriano gominho adriano.gominho@sapo.pt Outubro 1953, Lisboa, 2005 ============================================ Poema - 16 - Soneto às Ilhas de Cabo Verde... Criôle de Sanicolau Baté onda na proa de naviu Mi tâ levantá ôdge d'aquele linha Mi tâ ubí stâlá quês madêra Ta parâ pâ pensâ c'nhás bôton... Tá fazê barudjo na môstre na sône Quês pêches tâ saltá na Norte Mi tá ôdjá capotona diante de mim Quês Idjas de Cabo Verde - que sôrte! Pedras na mar tá dsabá Tem capotonas na mar azul Mi ta ubi quel vente fresquinhe Na quês corda tâ cantá E "Ildut" tâ dobrá Vermelharia I'nda Sol o horizonte c'a cambâ! Relembrando uma viagem no "Ildut - Ano de 1950 adriano.gominho@sapo.pt ================================================ Poema - 17 - Português lusófono SONETO AO "ILDUT" (Um navio) Bate a alta vaga na proa do navio, Levanto os olhos do horizonte, Oiço o ranger das tábuas no vazio Vasculho a pura e jovem mente... Range a retranca no mastro dormente, Saltam prateados peixes a Norte, Olho e descubro vultos em frente As ilhas de Cabo Verde - que Sorte! Penhascos sobre o mar caindo, Há fantasmas num oceano azulado E eu o fresco vento ouvindo, Cantar nas cordas do desfiado E o Ildut a Ponta dobrando I'nda o Sol o horizonte não deixado Relembrando uma viagem no "Ildut" - Ano de 1950 ============================ Poema - 18 - Fernando Pessoa - 70 anos da sua morte 30-11-1935 a 30-11-2005 [Homenagem] Vejo-te Pessoa na "Brasileira" que ora fez cem anos, em Novembro, vejo-te poeta de chapéu d'abas à maneira bigode da moda, se ainda me lembro... Caeiro, Campos ou Pessoa, povo teu bem te conhece, no Chiado imortal, teu nome no tempo não desapareceu no rebuliço da tua Lisboa natal ... Ó Pessoa repousa no teu verso Ainda cantados neste nosso Vale onde tua língua se lê com apreço... "Nasce um Deus, Outros morrem" no vale viva o poeta de "Mensagem" mais os terços qu'inda rezamos para se cumprir Portugal... ______________ adriano gominho adriano.gominho@sapo.pt Homenagem aos 70 anos da morte de Fernando Pessoa Lisboa 30.11.2005 ===================================== Poema - 19 - [Em criôle de S. Nicolau de Cabo Verde] Fernando Pessoa - 70 one de bô môrte 30-11-1935 a 30-11-2005 Mi ta odjôbe Pessoa, na "Brasileira", que agora complêtá cem ones, mi ta odjôbe poeta de chapêu bigôde trocide, côsa dôte têmpe... Caeiro, Campos ou Pessoa, bô pôve tâ conchêbe na Chiado de tûde gente, bô nome cá tá desaparecê na têmpe nesse Lisboa fadigôde... Paz Pessoa na bôs poemas de sempre cantôde nesse nôsse Munde d'onde tûde gente tâ gostá de bô língua... Um Deus ta nacê, Ote ta morrê, viva poeta de "Mensagem" más aquele rosário donde nô tâ razá pâ fazê bô Portugal... adriano gominho Lisboa , 23.11.2005 G8 - Perdoar a Dívida aos Países africanos Deus, Alá, ou Buda eternos Satisfeitos estão hoje mais - Os donos do Seus Mundos Terrenos - À dívida disseram BASTA, nunca mais... Os deuses recomendam do Alto Cais: - Perdoar não significa aos mandantes Aumentar as despesas do Satanás - Viver bem e os outros, como dantes... Gritai - ó povos d'Áfricas - e outros mais, Clamai aos vossos, outros Novos Rumos... E vós? Largueis o marasmo desses mangais De queixumes, acocorados na sombra dos fumos: Pegai nas Sementes, Enxadas e Animais, Rumai agora pr'o FUTURO, sem queixumes... ----------------- Adriano Gominho adriano.gominho@sapo.pt Soneto, escrito, hoje, 2005-06-11, ao saber que os G8 resolveram perdoar a dívida a África e alguma A. Latina. Bem-haja Crioulo de S. Nicolau - Tradução e criaçãolivres do autor adriano.gominho@sapo.pt Poema: G8, tá perdoá divda de pobres Nôs Deus, Alá ou Buda, Hoje ta f'cá contente Dône d'esse Munde Cabá quêz conta de cadábse... Mas Êz mandá tm'a cuidôde, lá de riba: Pordoâ cá mesma côsa que fazê Governante engordá Conta de Satanás, E nôs ta f'cá pôbre, moda dantes... Nôs gritá! - Tude gente d'África, Pâ nôs encontrá um caminhe novo, Pâ nôs saí desse nôs pobreza: Sem guisa, sem encôstá na bela-sômbra. Gente, nô pegá na s'mente, enxada e biche, C'nôs mon gente tá contrâ Futuro sem tchorá... Poema - 20- ================================ Dia da Criança, 1 de Junho de 2005 Dia de meninada Português/crioulo de S. Nicolau - tradução e criação livres, do autor ==== Seria bom viver num Mundo Global. C'má era bnite vivê num Mundo de Nôs tôde sem haver tristes crianças sem encontrá tristes m'nines com vidas nessas Áfricas de riqueza colossal tá sofrê nesse África de riqueza demundo onde a amarga verde folha é comida... donde pájâ ê góra c'mida de gente =================================== Sim, viver num Mundo Global Sim, morâ num Munde de Tude Gente onde não existam costelas arcadas, sem odjá costela de gente saíde sujidade e moscas na face angelical miséria, moscas naquês carinhas de m'nines De meninos com vidas acabadas De m'nines de vida cabôde Por este Nosso Mundo tão desigual, por causa deste nôs munde desgraçôde d'esbanjamentos de comidas de fartura de c'midas na caxôte de lixe onde não se vê ténue sinal sem mostra de crê mudâ, de Bondade p'ras Almas sem Vidas... E nós, aqui, viramos a cara pr'os lados, e tude gente ta vrá cara pâ lôde! o mesmo fazendo os Governantes, Moda governantes que ta mandá nossos e delas - pobres Áfricas! De nôs e d'eze - pobre África! ó África pôbre das enxadas sem tchuba pâ enterrâ grão de midges... Portugal 11/6/2005 - Forte da Casa adriano.gominho@sapo.pt Em castelhano por Luis Gominho - filho do autor, vivendo em Espanha Día del Niño 1 de Junio del 2005 Seria bueno vivir en un Mundo Global. Sin haber tristes niños Con vidas en esas Áfricas de riqueza colosal Donde la amarga verde hoja es comida Si, vivir en un Mundo Global Donde no existan costillas arcadas, Porquería y moscas en la cara angelical De niños con vidas comprometidas Por este nuestro Mundo tan desigual De despilfarros de comidas Donde no se ve tenue señal De bondad por las almas sin vidas... Y nosotros aquí, volvemos el rostro para el otro lado, Lo mismo haciendo los gobernantes, Nuestros y de ellos - ¡pobres Áfricas! De las palas que no cavan la tierra como antes... Portugal - Forte da Casa adriano.gominho@sapo.pt =================================== Poema - 21 - 1 de Junho de 2005. Soneto Dia do Poeta 21-03-2005 Tamborila a chuva suja, de verdade, Tchuba porca de verdade d'esta estranha e parda atmosfera desse céu ta fazê mêde hoje grande lixeira da Humanidade hoje "colaça" de tude gente qual Bola azul - uma quimera... cadê bola azul, cadê sonho... É dia dos poetas patetas. Foi, era Ê dia daqêzes poetas. Djá pâssâ e será pr'os qu'inda se incomodam e nós ê pouco que tâ repará no destino do Nosso Planeta que erra c'ma nôs terra tâ sofrê nas ambições que nos confrontam... empurrôde pâ seberba de tude gente Os poços de petróleo secam, amigo, Quês poço de pitrôle tá secá, água das nascentes já se esvai, ê água que dâ tir na rocha e nós, bem, obrigado, o outro perdido... Nôs tá f'ca bem, obrigado, largôme-da-mon... nesta Bola de poetas patetas, vais nesse bola de poetas espantôde, Sou mais de mais d'um deles escondido, más um mofineza de poeta escrevendo Verdades não "ais"... que tâ escrebê côsa, ma câ tá chorâ... adriano gominho adriano.gominho@sapo.pt Dia dos poetas, Lisboa, 21.3.05 =================================== Poema - 22 Simples, o caixão de cipreste do Papa João Paulo II: Caxon simples, sem enfeites... "No dejo tras de mí propriedade alguma de la que sea necessario disponer" Testamento do Papa Juan Pablo II, Roma, 6-III-1979." É a Sª.Santidade na sua simplicidade, Ê Santopai, ôme simple, No amarelado lenho de viva vida, naquêle madêra que dj'a foi planta d'árvores que Deus de verdade criá pâ nôs companhêr na sone p'a sempre Simples Urna de madeira polida Côsa simples, fête de madêra lustrôde Na imensidão da Praça colocada, poste na mei daquele lôrgue onde só os pombos esvoaçam vida, onde só pomba tem vida sofrida nas gentes nessa triste calçada... n'Alma daquês fige de Nhôsenhor... Gente calada na calçada plantada gente calôde, na calçada pregôde No Testamento, bens não deixou, Na testamente cá dxá nada como exemplo, simples caixão de cipreste, um mostra de caxôn de Casa de Tumba sem gavetas, pois do Mundo NADA retirou... sem gaveta, dês Mundo gente ca tâ levâ NADA Ficou o Amor que p'lo Mundo espalhou, f'ca sê Amor pâ tude gente E sementes, pr'a neste Mundo agreste, E smente pa neste Munde desgraçôde mais ciprestes - como exemplo - legou... más plantas pâ gente semeâ... »»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» criação de: adriano gominho, Português/"crioulo livre" Ao ver tamanha grandeza de um simples caixão de cipreste, para um Grande Homem. No dia do funeral do Papa João Paulo II Forte da Casa - Portugal, Abril de 2005 »»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» POema - 23- ROTCHA DE NHÂ TERRA ÀS ROCHAS DA MINHA TERRA Rotcha de nhâ terra Rochas da minha terra Vente na encosta tá subiá O vento na encosta assobia Leste ta curvâ quel tamarindêro O Leste curva o tamarindeiro Quês cabra ta gritá junto As cabras berram em sintonia O azul de céu é tude igual O azul do céu é rotineiro. Cocuruto de Monte olte O topo do monte altaneiro Ta panhâ algodon fête bocôde Embala o algodão em flocos Carrapetas na Covoada As carrapatas no desfiladeiro Ta parcê moda pedra na rotcha Surgem por entre pedras em blocos Tarde tâ d'jgá na morrinha Chega a tarde, cai a noitinha Griles tá fazê barudge na mur Batucam os grilos no muro Sol ta gatjá na monte O Sol esconde-se na Centinha Manhã ê ôte dia pâ vencê. Amanhã será outro dia duro. adriano.gominho@sapo.pt Revivendo S. Nicolau - [ano de 1950] Lisboa - Julho 2004 ===================================== Poema - 24- 2 Rotjas paridas c'o sofrimento Rochas paridas com sofrimento Geme o vento nos picos Vente ta gemê na Rocha Curvam a erva e os fetos Tá fazê curvá monda e padja Mãe-Natureza aos gritos, Mamãe - Natureza tâ gritá Para te parir - Rochas dos meus afectos... Pâ paribe - rotcha cridas Tchuba câ ta dôbe bônhe As nuvens só lavam-te, de leve Nuvem ta lavôbe de mancinhe Como no tempo dos nossos antanhos Moda na têmpe de nôs papai, Geme assim o vento que leve Assim ta gemê quel vente que ta levôbe Pr'a longe - Sonhos de Saudade Pá longe - sonhes de sôdade Pr'a longe, naquele mar Pá longe, naquêle mar, Que contemplas à tarde Que bô ta ôdejá na desamparinho Quando chega a hora de chorar! Cônde tá t'chegá hora de chorâ! Geme o vento nos picos escondidos Vente ta gêmê na olte, Das rochas paridas com dor, De rotcha paride que dor, Que dilacera e castiga os fugitivos, Que tá ratchá, -Teus filhos paridos com amor. Bôs fidges parides que amor... --------------- adriano gominho Julho 2004 ===================================== Poema - 25 Soneto às Ilhas de Cabo Verde... Bate a alta vaga na proa do navio, Quêl ônda na proa de barco Levanto os olhos do horizonte, Um tâ levantá ôdge d'aquele linha Oiço o ranger das tábuas no vazio Um ta ubí stalá quês madêra Vasculho a pura e jovem mente... Ta parâ pâ pensâ c'nhás bôton... Range a retranca no mastro dormente, Tá fazê barudjo na môstre na sône Saltam prateados peixes a Norte, Quês pêches ta saltá na Norte Olho e descubro vultos em frente Um tá ôdjá capotona diante de mim As ilhas de Cabo Verde - que Sorte! Quês ilhas de Cabo Verde- que Sorte! Penhascos sobre o mar caindo, Pedras na mar tá desabá Há fantasmas num oceano azulado Tem capotonas na mar azul E eu o fresco vento ouvindo, Mi ta ubi quel vente fresquinhe Cantar nas cordas do desfiado Quês corda ta cantá Cânhamo, e o Ildut a Ponta dobrando Na corda e Ildut ta dobrá Vermelharia I'nda o Sol o horizonte não deixado Ainda Sol cá tá d'jgá naquêle linha! --------------- adriano gominho Relembrando uma viagem Ano de 1950 4 No meio do Oceano Na mei de mar Quem vos semeou - desertas ilhas? - Quem fazê de bô smente - ilhas pelôdes? Nesse meio do mar profundo e medonho! Na mei de mar fundo que ta metê mêde! Dez ilhas d'um vulcão e milhas Dêz ilhas d'um vulcão e lonjura D'água onde a água é um Sonho! D'água onde água ê Espêrança! Estão no redemoínho espalhadas Espadjôde na Cova de Manhánhâ Nas escumas dos navios passando D'escuma de navio tâ passâ Levadas p'lo vento às rabanadas Levôde pâ vente malcriôde Rochas e pontas abruptas dobrando. Rochas e Ponta de terra tá dobrá. Chiai! - vento nos cordames, Cantá vento naquês corda Chorai!, filhos da terra - fugitivos, Chorâ - fidges da terra fudgidos Que ta b'scâ vida nandaimes Tá besiá vida n'andaimes Desta Europa d'agora, de enxames Desse Munde d'hôje, de data De trabalhadores inactivos, De gente sem trabôdge Num mar sem vapor como exames... na mar sem vapôr em enxames. -------------- adriano gominho Aos Emigrantes de Cabo Verde Lisboa 23-7-2004 ===================================== Poema - 26 - 5 Rocha da Centinha - S. Nicolau Rotcha de Centinha Vejo-te, Rocha da Centinha, Um ta odjôbe - Rotchas de Centinha Como pedra furando o Céu, C'ma pico tâ frá Céu Na tarde que chega à Prainha Na tarde que ta djegâ na Prainha E as nuvens cobrindo-te com o véu... E nuvens tâ cobribe moda véu... Nos teus flancos as feridas ao léu Na bôs costa feridas cram Engalanadas p'las carrapetas Lindôde pâ carrapeta Das pedras caídas do céu De pedra caíde do céu Cá em baixo, as Águas-das-Patas... Debôdche d' Águas-das-Patas Ó Sol poente que pinta teu cabelo Ó sol tá cambâ na bô cabêle Branco de branco nevoeiro Brancura de cabel branco Tudo é rude e tudo é belo! Tude ê brôbe, tudo ê bnite. Ó cinzas rochas com desfiladeiro! Ó rotcha cinzenta sem fundo Donde pinga a água no seio Donde ta pingá água ne sê mei Das avencas ano inteiro... De fête verde, tude ône intêr... adriano.gominho@sapo.pt Relembrando S. Nicolau - 1950 Lisboa, 24 de Agosto de 2004 ===================================== OUTRO E-BOOK [e - Poesis] Verão 2004 SER SIMPLES, APENAS... ===================================== e SÓ SIMPLES Poema I Querer ser simples Gostaria de ser simples, enfim Acordar ao som dos pardais, Ver andorinhas na tarde sem fim De palha no bico, nos beirais... Ver todas as Crianças na Escola Mesmo por carreiros do mato Regressar à tardinha de sacola Chutando simples bola de trapo... Gostaria de ser simples - um cidadão Que ninguém conhecesse na rua - Que vê no seu semelhante um irmão Com tempo para olhar a foice da Lua... Gostaria de ser simples no olhar Pr'a flor silvestre do monte, Vendo a magia no pintar Da Natureza ou na seca fonte... --------------- adriano gominho Lisboa- Julho de 2004 Poema II Tempos de Criança Como seria bom voltar a correr arcos, P'las ruas do meu Bairro, à noitinha, Jogar num banco p'la fresquinha Com pedras redondas ou telhas em cacos, Ver a Ribeira Brava, à noitinha, Sussurrando a caminho do mar, E o Lombinho o luar a alumiar, Ou roncar do mar, longe, no V da Prainha. Ser simples, correr atrás dos gafanhotos, Cortar caniços com canivete barato Sem pensar no amanhã, sempre ingrato, Correr p´las escuras vielas - com os garotos - Ser simples, ser Tudo sem ter Nada, Ver o Sol, impávido na sua caminhada, No Seco Norte sem a chuva desejada, Ver meu povo semeando sua Fé inabalada... -------------- adriano gominho A S. Nicolau de Cabo Verde, Lisboa, 9-7-2004 Recordando ano de 1950 [tinha 10 anos] Poema III Direito a Aprender Ser simples, ir à Escola Por carreiros no mato traçado Sentir o rolar da caneta na sacola De cartão, ou serapilheira do ensacado! Sentir o mato arranhar as perninhas, No cacimbo da fria noite passada Levar a cabeça tinta das tinhas - Outras doenças mais da pequenada. Ser simples, levar feixe de varas Para o Professor escolher a melhor, Acabar a classe e ter recreios sem amarras, Oferecer-se para aplicar palmatórias de dor... Ser simples, sonhar vir a ser um Nada, Sem horizonte além do horizonte Vendo mar, pensando na encantada América ou hospitaleira Holanda distante... -------------- adriano gominho S.Nicolau - Cabo Verde Vila da Ribeira Brava - ano de 1950 Poema IV Evasão... Queria ser simples, viver noutro Planeta, Onde o Desconhecido fosse meu irmão, E a língua entendida por todos - num Cometa - Que TODOS unisse com seu halo da Razão! Queria ser simples, sem carro, sem carroça, Sem Games Boy, sem Telemóveis impertinente, Ouvir apenas as sinfonias de aves, sem mossa De não ter HI-FI, CD´s - coisas do Continente! Ter apenas o suficiente para viver, Conviver e deixar os outros recordar Sonhos, numa praia sem esferovite a ver, Numa água não pintada com petróleo a boiar... Será que esse Planeta existe? Tenho Fé! Pois, de outro modo, interrogo-me, AFINAL, Que viemos fazer neste Mundo? Aplaudir de pé, O Desgraçado afogado neste Pantanal? ------------- Adriano Gminho Forte da Casa 11-7-2004 10H00 Poema V Flauta Sonora Olhar o Mundo em redor, Embrulhar-me na lã da sua manta, E, lá em baixo, a cidade que desencanta. Ser mais simples que um pastor, Ouvir a melodia numa flauta sonora De simples cana silvestre da montanha, Ou o ondular d'uma seara tamanha, E ter espanto ao ver nascer a aurora Ser simples, ouvir o vento na giesta, Ver tudo no infinito azul - algures -! Mesmo sem as amareladas flores, Ou os zumbidos da Primavera em festa... Ser simples como o pastor, Olhar um Mundo diferente Apreciar, sim, a Natureza dormente. Contar as ovelhas em redor... -------------- adriano gominho F. Casa, 11-7-2004, 10h00 Poema VI Jardineiro simples... Ser simples jardineiro, Viver por entre as flores, Ter por companhia o dia inteiro E o zumbido das abelhas multicores. Espalhar água nas vivas pétalas Dos brancos lírios viçosos, Ver as dálias recurvadas - aquelas De vivo roxo - nos cantos apetitosos, P'ra rapazes e meninas na tarde finda, Quando o Sol morre e não nasce a Lua, E eles, aos pares- qual rosa encarnada - Na solidão dos lampiões iluminando a Rua. Ser simples como o artista jardineiro, Que vê em cada flor a transcendente beleza, Do branco jasmim ao cardo traiçoeiro, Todas lindas flores da Mãe-Natureza. --------------- adriano gominho Forte da Casa, 11-07-2004 Aos jardins de S. Nicolau - Cabo Verde Poema VII Abrir a janela Abrir uma janela pr'o mar, A mente pr'o Além Da Terra no Universo estrelar Aguardar a tarde que aí vem. Abrir a mente pr'ó Além, Pois aqui estamos de passagem, E depois de Nós, alguém Virá retomar a mesma Viagem. Abrir a janela à aragem Ver as cortinas como velas Empurrando-nos na viagem Para outra Margem onde nelas Consigamos ter coragem E caminhar com as nossas mazelas... -------------- adriano gominho 22-Julho-2004 Poema VIII Ser Simples, Um ignorante neste Mundo: Ser simples, nunca ter ouvido falar D'Einstein e sua teoria louca, Não conhecer minas de matar Quem apenas semeia a mandioca. Ser simples, ignorante e nunca encontrar Genocídios de povos diferentes, Fome na Terra d'água pr'o mar Ouvir risos de ricos sorridentes, Em Palácios d'Ouro e Petróleo, Donos deste Mundo e não só, Pois chegada a Hora é sem óleo Que resvalam para simples cova só, Sem Glória, sem vã Fama - Quais fogos-fatuos - breves, Extinguindo-se a breve chama De pobres, ricos e seus almocreves, adriano gominho Lisboa, 22-7-2004 ===================================== DO LIVRO VINTE SONETOS A CABO VERDE,por adriano gominho ===================================== Na ponta do finito cais (A todos os que tiveram vontade de partir e ficarm nas ilhas de Cabo Verde) SONETO I Na ponta do finito cais Na ponta do finito cais, no silêncio das ondas parou, vendo o Ilhéu espadas de luz espalhando. Na ponta do finito cais o mar contemplando e o céu pintado p'lo fumo do vapor que zarpou. No porão fundo, o seu infantil sonho parou, o sonho de deixar as negras rochas paridas das convulsões de lavas, dias-há havidas i'nda o revolto mar a costa agreste galgou. Na ponta do finito cais, vendo o falucho ancorado, enquanto o vapor na Ponta de S.Pedro fugia via o ignoto mar sem destino, e eu acordado... Assim sonhava um ilhéu, e o Sol falecia no mar largo e o solitário no cais fincado contemplando, outra vez, o pôr-do-Sol desse dia. Relembrando Mindelo 1950 adriano gominho ===================================== HOMENAGEM E RELEMBRANDO TIMOR, onde o autor viveu de 1962-1975) ===================================== POEMA I Catando o bago do café Alongam-se braços desnudados, curvam ramadas tomadas de bolores, cantam o colhem os bagos, no silêncio das matas e seus odores. Venho à janela. Contemplo essas timores, na simplicidade de gentes sem pressa, catam as cerejas e colocam-nas em tambores, sacas de palha ou cousa que pareça. Vermelhos bagos que enfeitam a mata, escarlates cerejas pintalgando o chão catadas uma a uma sem falta, delas dependem o ganha-pão! Findo o dia, tarefa finda, mãos meladas, vestes pobres rasgadas, a caminho das palapas, lá longe ainda, com filhas às pernas alapadas. N.A. timores - timorenses palapas - palhotas o autor: adriano gominho ex-administrador de Concelho de Ermera -Timor 1968 Lisboa 2/2005 adriano.gominho@sapo.pt ===============OUTRA VEZ, POEMAS A CABO VERDE============== POEMA II Lua, candeia dos pobres [aos habitantes dos bairros pobres de Mindelo -ano de 1950] Ilhéu na superfície do mar sem estrelas no céu, por companheira a ilha Santo Antão guardando, lá vai a Lua que Monte Cara está alumiando, cansada candeia, sem halo, nas núvens sem véu... Lua sem halo no céu que chuva não deu, pensa o catraeiro que bote vai varar, após uma dia na baía sem nada catar, e a horta seca, sem água - Sina que não valeu! No ar morno o cheiro a carvão d'outrora, meu Deus, outros tempos que já lá vão, em que abundava peixe pela borda fora... Agora, nem vapor, nem chuva nem carvão, e difícil fuga para a pobre Europa de agora para aonde alguns chegam, outros não! [Relembrando Mindelo, ano de 1950] adriano gominho Portugal, 7.02.2005 POEMA III Carta de quem chegou [de um amigo que fugiu para Holanda, em 1950] Num vapor de canudos, em dia de bruma, numa tarde cinzenta de Setembro parti, olhei as ilhas o mais que podia e então senti à minha volta já não haver senão escuma. Foram-se os dias, vieram longas noites de bruma até ver terras de Holanda - a Europa sonhada - terra de Castelos de Oiro, Prata e Fada encantada sonhos e Fantasia do menino-ilhéu, mais uma... Sonhos, meu velho amigo, mil sonhos desfeitos. Não encontrei as nascentes de oiro e prata deram-me trabalhos pesados em portos suspeitos, onde a escuridão encobre a sucata por onde vagueia gente boa ou com defeitos, que bebe, que ri, que chora, que ama e mata... POEMA IV [Soneto a um emigrante de Cabo Verde] PÉROLAS DO MAR Casco negro no mar azul anilado Lá vai meu vapor grego de salvação, Leva a bandeira d'um longínquo Japão E eu, à proa, p'las saudades magoado. No mastro o pano é branco-encarnado No seio do céu de fumo que se esvai, E eu, um fugido destemido, no porão vai Procurar Destino na ilha-madrasta negado... Saúda-me em rasantes voos branca gaivota, Chora o meu violão na solidão do mar,. Trinam as cordas e eu rezo à Santa devota Suplicando-Lhe que ao Destino me deixe chegar Para Lhe poder ofertar a mais valiosa conta Feita de simples pérolas catadas no mar... Dos "vinte poemas ao Mar de cabo Verde" adriano gominho, Mindelo, 1954 A TIMOR TIMOR, SIMPLES FLORES DO CAFÉ por adriano gominho [Poesia] POEMA II Flor do café É manhã. Venho à janela, Escuto a Gleno susssurrando Oiço os loricos executando Nas verdes copas sinfonia bela... Brancas nevoa nas rochas-uma Nau Com preguiça de velejar - O verde das madre-del-cacau Torna-se mais verde ao despertar... Canta o galo num quintal silencioso Responde a cacatua no seu poleiro Grila a cigarra no mato tenebroso, E eu, vendo o Mundo num outeiro. Galga o Sol, brilha o cafeeiro, Brancas flores simples maravilhas, Baloiçam no fresco do perfume ligeiro Naquele silencioso mato de vidas. N.A. madre-del-cacau - árvore de sombra ao café em Timor adriano gominho Relembrando Ermera - Timor 1963 ============================== POEMA III Transportando o bago do café Dorsos curvados, pés na lama Rumo ao cimento quente dos terreiros Acarretando às costas as sacas e a Alma Aquecidas p'lo sol dos longos carreiros. Despejam os bagos com suor, Preparando-se para nova jornada Esfregando os arranhões de Dor, Ainda há mais uma longa caminhada... Rolam nos dentes dos engenhos os bagos, Solta-se a vermelha casca de sangue Misturam-se o Suor e a Dor, É dura a Vida servida aos tragos... Cai a noite no terreiro de cimento quente, Cala a floresta, agora com outros sons, E as timorenses, cansadas, de corpo e mente, Seguem - amanhã é outro dia em outros tons? adriano gominho Hatolia - Timor - 1963 Lisboa 2005 =====À ILHA DE S. NICOLAU - CABO VERDE===== MUROS BRANCOS DA TABUGA [Cemitério de S. Nicolau] Tamarideiros com troncos, Na direcção do vento do suão Curvados, Folhas zumbuindo, Quais lobos famintos, Ramos desnudados sacudidos, Negros e famintos corvos, Nos muros brancos pousados. Silêncio... Silêncio... Vento assobiando nos tamarindeiros, Grilos nas fendas das pedras Batucando, Pardos pardais nas ramadas Das acácias de amarelo floridas Saltitando. Silêncio... Silêncio é meio-dia. Brilha o Sol, Num céu azul. Ao longe, rosna o Mar mansinho... Uma cabra, empoleirada num cerro, Berra chamando pela cria... O chão de secura é um espelho... Brilha o muro de branco caiado No cemitério em talhões dividido: Para cristãos, Para judeus, Para os ceifados Da fome de quarenta... Silêncio... Silencio... Vento uivando Ramos de acácias desnudados, Vencedoras de passadas secas fatais. Lá dentro, Nos muros da Tabuga, Papai, mamãe, irmã, Embalados pelo sibilar do vento, Sono Eterno Dormem... Repousem em Paz! Nada mais vos posso desejar. Adriano Gominho Fevereiro 2005 Adriano Gominho / Mindelo 1950 - A ESPANHA O bosque dos 192 ausentes... Hastes d'esguios 192 ciprestes, Que arranham o céu de chuva por cair, São Almas sem Corpos que arrancastes Do seio dos vivos felizes a sorrir, Na Primavera de 11-M i'nda por vir! Porquê? Interrogo os filhos todos, D'uma Religião em que o advir Da Felicidade promete a rodos! P'ra onde, neste Mundo desatinado? Que outro Mundo vos cedem, Se nem este tendes por achado?! Os aparos afiados desses ciprestes escrevem, No céu de TODOS, as palavras Crueldade E Perdoai-lhes, Pai, não sabem o que fazem! TRADUÇÃO PARA ESPANHOL POR LUIS GOMINHO: El Bosque de los 192 ausentes Ramas de delgados 192 ciprés, Que rascan el cielo de lluvia por caer, Son almas sin cuerpos que has arrancado Del seno de los vivos felices a sonreir. En la primavera del 11-M, aún por venir, ¿Porqué? Interrogo los hijos todos, De una Religión en que lo que está por llegar De la felicidad promete um montón ¿Para donde, en este mundo desenfrenado? Que otro mundo os ceden, ¿Si ni siquiera en este lo teneis por allado? Los lápiz afilados de esos ciprés escriben, En el cielo de TODOS, Las palabras Crueldad Y Perdonales, Padre, ¡no saben lo que hacen! adriano gominho adriano.gominho@sapo.pt (Singela homenagem aos massacrados do 11 M.2004) Lisboa 11-03-2005 ===================================== DO LIVRO DO AUTOR Título: Homens de Rostos Queimados Vindos das trevas do Oceano - Composto em: 1999 - Revisto em 2005 ===================================== Poemas livres, sem rima... à ilha de SÃO VICENTE de Cabo Verde, Tomo I (referentes à década de 1950 ) o autor cabo-verdiano: Adriano Gominho POEMA UM (Vida de menino pobre da ponta-da-praia que catava restos de carvão para vender, ano de 1950) Rapazinho de carvão de "rocega" Maré baixa ondas brandas morrendo... Toni, de calções furados, lata na mão na água turva se afunda... Grãos de negra pedra, das lanchas de carvon pelos fundos vindos, às mãos parar... Pedrinhas brilhantes, negras como o Toni, na lata amontoando-se vão... Toni, um rapazinho, como tantos pela sorte renegado, cais de cimento, com Sol-posto por companheiro, se despede, pela Rua de Coco, vender vai ... Dez tostões o quilo, quem compra? Um vapor na baía três vezes apita, da negra rocha de S. Pedro despedindo-se... Toni, debaixo do coqueiro, carvão de rocega vai vender... Passam pessoas a passos apressados... Toni, cansado, desiludido, carvão de rocega, quer vender mas sem ninguém por atender... Monte Cara, tenta consolar o pobre Toni: bem te disse, menino, quando da quarta classe, que vida nesta baía já não havia... Agora? Em mim acreditas, menino mofino!? Toni, para um vapor olha querendo fugir e ficar grudado à terra, ao carvão de rocega de alma e coração chafurdado... _______________ adriano gominho Mindelo,15 de Junho de 1950 ***** (Dedicado à cidade de Mindelo - S. Vicente, aquando da feitura do meu exame da quarta classe da primária, ocorrrido em Julho de 1950) Poema dois Viva aquele bolo, viva aquele vim, viva aquele pai.... Gritam os garotos, grande façanha, para pequenos de dez anos apenas, a feitura da quarta classe de primária chamada. Viva aquele bolo, viva aquele pai.... ... Em louca correria, para a Pontinha seguimos, ilha de S.Antão, de nuvens tapada, contemplando... Viva aquele bolo... Monte Cara, de face empedernida, carrancudo como sempre, olha-nos, perguntando: e agora, meninos meus, que ides fazer, nesta pobre terra, nestas pobres ilhas que um Deus no oceano espalhou? Ainda não sabemos... Em coro, à rocha respondemos: ainda não sabemos... As folhas caíram, as chuvas não chegaram, os anos passaram... E agora? A chamada: Florival? Para Alemanha partiu... Floriano? Numa manhã de névoa, num cargueiro cinzento, fugiu... Se, ao porto de salvamento chegou, não sei!... Os outros? Tantos, Nossenhor... Chico? Toi? Adelino?... outros mais? Não sei deles... Só sei que, estavas certo, Monte Cara, ao dizer-nos que nestas escalavradas encantadoras ilhas, de Cabo Verde por nome, futuro para todos, no horizonte não vias... Para mim, para os outros da primária saídos... Realidade nua e crua! Viva aquele bolo, viva aquele vim, viva aquela mãe, viva aquele pai.... E tu? Monte Carrancudo, à tua sombra, dormindo não fiquei, para um dia poder dedicar-te, cinquenta anos, depois do Mundo vezes mil ter rodado, estes singelos versos.... _______________ adriano gominho Mindelo, Junho de 1950 ***** Poema três Cais de madeira Estacas roliças no lodo espetadas, limos verdes, cracas, caranguejos pelas fendas escuras trepando, botes multicores de tábuas mal calafetadas, a maresia, cheirando nas brandas ondas baloiçando... Rijos catraeiros, de rostos, por mil sóis, queimados, ombros largos, músculos de ferro, mãos pelos longos remos, calejadas. Estacas no lodo profundo espetadas, cais de madeira, feito pelo tempo, pelas ondas, pelo mar carcomido... Catraeiros, de bonés ensebados, pele de castanha pela dura labuta de riba de mar passada. Remos pelo sal, e suor esbranquiçados espadas cintilantes, águas calmas violando, velhos botes, velhos catraeiros ao velho cais, de madeira feito, rumando... Ao fundo, a vetusta Alfândega da Lei, de portas em arcos para a Grei escancaradas, sedentas... Passageiros mareados, trôpegos, do falucho Santa Maria, desembarcados. Terra sabe de S. Vicente. Cheira a maresia, a carvão de pedra chamado... Saudades, saudades... As cargas, em silenciosas zorras, Rua Lisboa sobem, no negro basalto, rastos do sebo viscoso... deixando... Nos guindastes, de paus feitos, gemem roldanas de rija madeira, guincham cabos de aço desfiados em tons desafinados, não sei, se mornas chorando, ou coladeiras cantando. Estacas no lodo espetadas, ao sabor das ondas em cavos profundos rumores, rangendo corpos suados, no escuro do cais colados... _____________________ Mindelo, Junho de 1952 adriano gominho ***** Poema quatro (Dedicado à cativante Praça Nova, em S. Vicente de Cabo Verde, ano de 1954) Praça Nova Coreto de ferro de ferrugem tomado, telhado em bico, pelo tempo castigado, o céu desafiar querendo... Lá dentro, no alto, instrumentos de sopro no corrimão dormem encostados, à espera de nostálgicos músicos. É domingo! Boquinha da janta. Banda de Nhô Reis, velho amigo dos alunos do Liceu, ao estrado sobe... Ta-ta-tan... Ta-ta-tan... Há música na Praça.... O Grémio, miragem nossa, bem iluminado, gente branca da terra alberga, de charutos e cigarros americanos nos dedos fumando... Nós, alunos de então com treze primaveras, apenas, à roda do cimento da Praça Nova, nosso pau de almanjarra rodando, olhos bonitos, às meninas bonitonas a cada volta da nossa nora, fazendo... A Bia? Está alí, no banco, da acácia de amarelo florida... Secas vagens, nossas cabeças, matraqueiam... Outra volta à nora. A Bia? Para a casa regressou... apagou-se-me a Luz na alma... ***** Poema cinco Homenagem no Dia do Pai (Homenagem a papai e mamãe, que me puseram no Mundo, para que, aqui e agora, lhes pudesse prestar, via Internet, esta modesta homenagem) À memória do papai, professor Luís Gominho (I Centenário do seu Nascimento) 1985-1995 Um dia disseste-me, papai, por carta a bordo do paquete Timor recebida, que do Oriente Extremo, um nosso progenitor, de nome Jaco, viera... Corria o ano de 1962, e eu com apenas vinte e poucos anos... Pensei, nas verdes águas do Índico, navegando, nos Homens de Rostos Queimados, Vindos do Oceano, que nos deram origem, título escolhido, para este modesto trabalho, a vós dedicado, papai e mamãe... De todos os poemas livres que até hoje escrevi, foi este o mais difícil de gestar: por vos querer muito, não encontrando na minha memória palavras com força para minha gratidão infinda vos expressar, e ter olhos de lágrimas toldados... 1995, foi o ano do I centenário dos vossos nascimentos. Hoje, Dia do Pai, 19 de Março de 1999, vosso nome singular, na Internet porta aberta e amiga, pela sorte e técnica no meu caminho posta posso cantá-lo para dizer-vos que as vossas sementes em terra fértil cairam e frutos mil vai dando: filhos, netos, bisnetos... que vos saudam com gratidão... Ao Professor Luís Gominho meu papai, o grande mestre, cuja vida a várias gerações de ilustres cabo-verdianos ao ensino dedicou, à Amélia, minha mamãe, que sempre o acompanhou, afirmo-vos que esquecidos não estão pois no céu ? ou no cyberespaço infinito? algures, não sei onde! nas vossas Eternas Moradas, quiçá, a minha voz lá chegue, na certeza que, para milhões, vossos nomes cantarei, pois quem filhos tem jamais morrerá. Contem comigo... _______________ adriano gominho Lisboa, Portugal, Dia do Pai, 19 de Março de 1999,o último ano do vosso século) ***** Poema seis (Poema dedicado a Dr.António Aurélio Gonçalves, nhô Roque, meu professor de Filosofia, no Gil Eanes, em 1956 e 1957) "Tâ Triste ê Sabe" (É bom sentir-se triste) Praia da Galé, tarde morna de 1956... Pássaros de arribação, de pedra em pedra saltitando. Lá longe, estátuas perenes, carçaças de vapores o mar lambendo, negras cavernas enferrujadas, na Praia da Galé, na mornura de uma tarde gemendo... fofa areia de conchas pisando um vulto caminhando vem... É nhô Roque, o Filósofo, passeio vespertino dando... Salvou-me com aquele sorriso seu, praia fora desapareceu, na bruma das sulcadas marcas na areia apagando. Na minha memória, uma aula de Filosofia, do grande mestre, nhô Roque. No meu ouvido zumbindo. Frase simples ouvi: "Tá triste ê sabe..." Contava nhô Roque, certo dia, pela porta do Mercado passando, a esmola de costume, uma anciã lhe pediu... Meus bolsos revolvi, cinco tostões pretos achei... Obrigada, respondeu-me, obrigada, senhor doutor! A anciã fitou-me, mais uma vez: hoje estou triste, não sei porquê? mas "tá triste ê sabe"... Na minha caminhada para o Gil Eanes como destino, meditando fiquei, nas palavras da boca da anciã ouvidas: tristeza, sabura, melancolia, sentimentos para meditação... Anos volvidos: como as ondas nas carcaças de limos ferindo, enferrujadas barcaças na Galé soube da trágica notícia da morte do querido nhô Roque, atropelado, numa rua do Mindelo, sua cidade Fiquei triste! Ironia do Destino: um homem que só a pé gostava de andar... Fiquei triste! Sim, Nhô Roque, lá onde estiver, a indelével consolação, da tua figura na minha memória jamais desaparecerá, enquanto teus passos, nas longas tábuas, do Liceu Gil Eanes, num tum-tum-tum cadenciado minha Alma ouvir... ________________ Lisboa, ano 2000 Adriano Gominho ***** Poema sete (A um colega da primária, que, em 1950 engraxava sapatos na Pracinha da Igreja, e não entrou para o Liceu, apenas por ser pobre) PRACINHA DA IGREJA Fizemos a quarta classe na Escola da Praça Nova. Entrei pr'o Liceu tu não! Não por ter mais cabeça, caro amigo Floriano, mas sim pela marca das ilhas que, no teu corpo franzino, um P grande da pobreza marcou. Um dia, à sombra da acácia de amarelo florida, fui encontar-te, colega amigo Floriano, sapatos engraxando... Falavas, com inveja, raiva, e muita resignação... dos colegas que para o Gil Eanes iam entrar, de cadernos, pastas novinhas, da Casa do Leão saídos, sorrisos abertos nos rostos estampados... Disseste-me que, um dia, um dia qualquer, ias fugir, para terra-longe, mesmo como moço de câmara, à procura da sorte... Um dia, na verdade, S.Vicente, a caminho de uma Terra-Longe, deixaste... Na Pracinha, teu banco vazio ficou. Perguntaram-me pelo rapazote, que engraxar sapatos tão bem sabia... Disse-lhes que partiste, para um dia voltar... Dias, meses, anos... sobre mares de Canais navegando, cobres amealhaste para uma casinha no alto do Monte Sossego construir... Sonhos, sonhos,caro Florival! Ao chegar, NADA... Um irmão teu, um Caím qualquer, teus ouros, tuas pratas, tuas pedrarias, tua vida desbaratou... Encontrei-te, um dia, caro amigo e colega, num banco de jardim, pedras das calçadas esgravatando, em ingente tarefa, de beata fumegante resgatar. Para ti, cigarros fui comprar... Estavas doente, de corpo e alma... Não sou de chorar, mas as lágrimas, aos olhos me vieram... Lá longe, numa janela de verde pintada, na bruma dos tempos perdida, uma morna, num violão, chorava: Mundo bô ê triste... (Como o Mundo é triste...) Mindelo, 1964 ______________ adriano gominho ***** Poema oito (Homenagem ao relógio do Telégrafo - WTC, cuja luz nos alumiava nos estudos, em 1950) RELÓGIO DO TELÉGRAFO Teu mostrador branco teus ponteiros de segundo em segundo saltitando, das cinco da madrugadinha à hora da nossa partida para Gil Eanes... Tua luz amarelada, folhas de apontamentos compêndios raros alumiavas... O primeiro a chegar na alma do teu foco ficava... Os outros onde podiam e luz havia... Madrugadinha... As mulheres, de latas na cabeça para o "Caizinho", passavam, ancas bamboleantes, e grito estridente, de "tem li"... Catraeiros sonolentos, para a vida no mar da baía vão indo, andando... Relógio do Telégrafo, teus ponteiros pretos avançam, e nós meninos de então (1950) homens de agora , com saudades, mesmo a título póstumo, vivamente, Relógio do Telégrafo te saúdamos... ______________ adriano gominho ano 2000 ***** Poema nove Lembrança do Kodak, um catraeiro amigo, (ano de 1950) Kodak Dia da chegada do Ildut, veleiro da esperança, de S. Nicolau vindo pelas mãos do valente capitão Zézinho amigo... São sete da manhã. No frio cimento do cais aguardamos a chegada dos cachos de bananas amarelas e frescas, de S. Nicolau vindos... Kodak! Há encomenda para nós? Sim meninos, trago bananas empalhadas para a Djinha, tua titia, entregar... Kodak, de rosto queimado pelos sóis da baía, olha-me de alto a baixo, dizendo: vais avisar a tia... Corria eu, Rua de Coco abaixo, a caminho da Salina, levando a nova do Kodak . Oxalá, um dia, possa encontar-te, Kodak, e mostrar-te este modesto poema a ti dedicado... Queira Deus que sim! ***** Poema dez (Dedicado ao Padrão a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em S. Vicente, Cabo Verde, na base do qual eu me sentava para estudar, em 1950) Padrão de branca pedra Coluna hirta de alva pedra, de além-mar vinda, céu desafiando, pela branca espuma de um mar revolto, embalada... Homenagem de Cabo Verde e ilha de S. Vicente a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, com o Monte Cara por testemunha... A Cruz de Cristo, no topo do padrão erguida, novos rumos, aos emigrantes alumiando... Das negras rochas transplantada, singela mensagem na tua branca pedra gravada... Vida dura do emigrante pelo teu sextante guiada... Negras letras na branca pedra sumidas, ao Mundo, aos crioulos, lembrando feito valoroso na bela baía. Homens do Mundo de outras terras partindo à descoberta de novas gentes, novos rumos desvendando, como todo o cabo-verdiano, destemido intrépido, longe da sua terra o faz, também... ______________ ano de 1950 adriano gominho ***** Poema número onze Homenagem à dura vida das mulheres-carregadeiras do cais nos anos cinquenta, em S. Vicente de Cabo Verde) (Às valentes mulheres-carregadeiras do Mindelo - 1950 Chamo-te Guida, podias ser Chica, Tánha, Bia ou Silvina, valentes mulheres Vejo-vos a todas de ancas bamboleantes, canhoto na boca, saias p'la cintura, por cordas presas, no velho cais de madeira à espera de fretes, sentadas milho branco de Angola, bananas de S.Antão, ou S. Nicolau! esperando. Tánha e Bia juntas, Rua Lisboa acima sobem, sacas de milho dente de cavalo, às costas transportando... Suor nos rostos escorrendo, pés no negro basalto, figuras desenhando. Mulheres de aço, rijas como negras rochas de Cabo Verde, do vulcão paridas Tánha e Bia, sorridentes, Rua Lisboa acima vão indo, andando, com saca de milho dente de cavalo, às costas transportando. Suores e sorrisos nos rostos sofridos... Dura vida, vida dura da mulher-carregadeira, de um S. Vicente de outrora, (1950) só no pensamento dos mais velhos, como eu, infelizmente ainda presente... adriano gominho ***** Poema número doze Cais de cimento, hoje em ruínas (ano de 2002) Ferros polidos, corrimão sem fim, gasolinas atracados, marujos escadaria subindo... Nossos bolsos mancarra quente queimando, canelas com feridas nas ondas sarando, melado zimbrão no botequim a litro comprado... Farol no ilhéu piscando... Luzes de vapores horizonte azulado riscando... Ondas mansas escadas acima lambendo, catraeiros, no botes verduras metendo, negócio na baía procurando... cigarros da estranja, calças de ganga coçada, vazias latas de biscoitos, nos salões servidos... Ao longe, baloiçando, botes vazios, negros faluchos, fantasmas, contrabandistas, lanchas de carvão, lampiões, no espelho de cristal reflectidos... Brilhantes pontinhos ... Outros sitios do autor: TIMOR, MEU TESTEMUNHO 1963 a 1975 - FIGURAS TÍPICAS DE S. NICOLAU - Caminho Longe Para s. Tomé Homenagem aos bravos retornados das ex-Colónias (1975-2005).
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